Por João Fernando Silva
Existe uma guerra entre gerações? Vamos começar do começo, então neste artigo vou falar dos baby boomers. É fundamental reconhecer quem são os baby boomers. Essa geração compreende as pessoas nascidas entre 1946 e 1964, o que significa que, atualmente, muitos estão entre 58 e 78 anos. O termo “baby boomers” surge a partir do grande aumento de nascimentos no período pós-Segunda Guerra Mundial, quando o mundo viveu um ciclo de crescimento econômico e demográfico acelerado, que se estendeu até a crise do petróleo em 1973. Esse contexto histórico contribuiu para a formação de famílias maiores, mais estruturadas e orientadas por valores como trabalho, estabilidade, posse e planejamento de longo prazo.
Entender cada geração não é apenas um exercício acadêmico, mas uma necessidade prática para quem lida diariamente com clientes. Mesmo convivendo com pessoas de diferentes idades e com influências culturais semelhantes, carregamos marcas profundas do período histórico em que nascemos. Eu, por exemplo, lembro com clareza da hiperinflação no Brasil, pois era pré-adolescente na época. Lembro de como a economia funcionava, da chegada do Plano Real e de como era o mundo antes da internet e das redes sociais. Essas experiências moldam não apenas nossas memórias, mas também nossos hábitos de consumo, nossa relação com o dinheiro e a forma como enxergamos o futuro.
Os baby boomers viveram uma fase em que a economia global cresceu de maneira consistente, o que ajudou a formar uma geração que acumulou patrimônio ao longo de décadas. Embora hoje se diga que o maior poder de compra esteja concentrado nas gerações X e Y, especialmente entre os millennials, os boomers seguem sendo extremamente relevantes do ponto de vista econômico. Relatórios de instituições reconhecidas indicam que essa geração responde por mais de 20% do consumo global de bens e serviços. Esse percentual representa um volume financeiro estimado em dezenas de trilhões de dólares por ano, tornando esse público estratégico para qualquer negócio de varejo que busca crescimento e sustentabilidade.
É importante compreender que, aos 58 anos, ninguém pode ser considerado “velho” no sentido tradicional do termo. Muitas pessoas nessa faixa etária continuam trabalhando, viajando, estudando, cultivando relacionamentos e utilizando redes sociais com frequência. Essa realidade rompe com a visão ultrapassada de décadas anteriores, quando se acreditava que alguém com 45 ou 50 anos já estaria fora do mercado de consumo ativo. Hoje, essas pessoas estão presentes na economia e também em plataformas digitais, como o TikTok, onde buscam tendências, produtos e novas formas de consumir conteúdo e comprar. Há casos concretos de pessoas com mais de 80 anos que entram em lojas em busca de produtos vistos nas redes sociais, o que reforça a necessidade de abandonar estereótipos e tratar esse público com o respeito que merece.
Os baby boomers cresceram em um contexto de valores tradicionalmente sólidos. Família, trabalho duro, estabilidade e posse de bens sempre foram pilares centrais. Casar, ter um emprego estável, comprar uma casa, adquirir um carro e construir patrimônio faziam parte da narrativa de sucesso dessa geração. Essa visão moldou uma mentalidade mais conservadora, especialmente no consumo. A posse da casa própria, por exemplo, sempre simbolizou segurança e realização pessoal, algo que se fortaleceu no Brasil durante períodos de crise econômica e hiperinflação. Essa vivência consolidou uma cultura de cautela financeira e valorização da propriedade, que ainda influencia fortemente o comportamento de consumo desse público.
Ao contrário do que muitos imaginam, os baby boomers não desapareceram do ambiente digital. Eles utilizam redes sociais, interagem com conteúdos online e estão cada vez mais confortáveis com a tecnologia. Isso não significa que tenham abandonado o valor do relacionamento presencial, mas sim que hoje transitam entre o físico e o digital de forma integrada. Muitos preferem comprar em lojas físicas, conversar com vendedores e experimentar produtos, mas também buscam informações online antes de tomar uma decisão. Esse comportamento exige que vendedores e gestores dominem tanto o atendimento presencial quanto o acompanhamento digital, evitando qualquer tipo de fricção entre canais.
O poder de compra do baby boomer não deve ser subestimado. Trata-se de um público que valoriza qualidade, durabilidade e transparência. Diferentemente de uma busca incessante por preço baixo, eles estão dispostos a pagar mais por produtos que entreguem valor real e benefícios duradouros. Compram menos em volume quando comparados a gerações mais jovens, mas tendem a gastar mais por item e demonstram alto nível de fidelidade às marcas que conquistam sua confiança. Essa lealdade, embora difícil de conquistar, torna-se um ativo extremamente valioso. Um cliente boomer satisfeito costuma compartilhar suas experiências com familiares, amigos e sua rede de relacionamentos, fortalecendo de forma orgânica a reputação da loja.
O relacionamento com esse cliente exige algo cada vez mais raro no varejo: respeito ao tempo e clareza absoluta. É fundamental ter paciência para explicar condições de pagamento, garantias, políticas de troca, parcelamentos e programas de fidelidade. A transparência é indispensável, pois não há nada mais desgastante do que prometer um benefício e frustrar o cliente no momento do pagamento. Esse tipo de falha compromete não apenas a relação individual, mas a imagem do negócio como um todo.
A abordagem de vendas para os baby boomers deve ser baseada na construção de confiança. Eles precisam sentir que estão sendo ouvidos, compreendidos e respeitados. Isso exige um atendimento atento, sem pressa, que explique com clareza e valorize o cliente como pessoa, e não apenas como número de ticket. É essencial compreender que esse público pode ter um ritmo diferente de decisão e que a necessidade de ponderar antes da compra é natural e deve ser acolhida, jamais pressionada.
O ambiente físico da loja também exerce influência direta na experiência desse cliente. Boa iluminação, organização, acessibilidade, equipe bem treinada e uma atmosfera acolhedora não são diferenciais, mas requisitos básicos. Um espaço confortável transmite respeito, aumenta o tempo de permanência do cliente na loja e favorece a recorrência de compra.
Por fim, os baby boomers representam muito mais do que poder aquisitivo. Eles carregam experiência de vida, conhecimento acumulado e influenciam decisões de consumo não apenas próprias, mas também de familiares e pessoas próximas. Atender bem um cliente dessa geração não é apenas realizar uma venda imediata, mas construir um promotor da marca, alguém que reforça a credibilidade e a confiança no negócio.
Entender e atender adequadamente os baby boomers exige respeito, qualidade, transparência e uma adaptação equilibrada entre tradição e modernidade. Essa postura não apenas amplia resultados, mas pode se tornar um diferencial definitivo para qualquer negócio que deseja prosperar no longo prazo.



