Por Leandro liz
Psicanalista clínico
@psicanalistalizes
Contato 49 999058129.
Vivemos um tempo em que o mundo parece gritar o tempo todo, guerras, disputas, polarizações, violência. Mas existe algo ainda mais perigoso do que os conflitos entre nações, o conflito que cada pessoa carrega dentro de si. A guerra externa assusta, a guerra interna adoece.
Quando vemos o mundo em tensão, nosso corpo reage. O cérebro entra em modo de defesa, por medo, insegurança e alerta constante. Isso não é só psicológico, é biológico. O organismo se prepara para lutar ou fugir.
Mas existe uma pergunta importante aqui:
Por que algumas pessoas se desorganizam completamente diante do caos externo e outras conseguem manter certa estabilidade? Porque o conflito de fora só ganha força quando encontra eco por dentro.
Se dentro de você já existe uma batalha entre desejo e culpa, entre raiva e repressão, entre carência e orgulho, qualquer notícia de guerra vira apenas um gatilho para algo que já estava em combustão.
A psicanálise nos confronta com uma verdade difícil: o sujeito não sofre apenas pelo que acontece no mundo, ele sofre principalmente pelo que ainda não conseguiu elaborar dentro de si. Ansiedade não surge do nada.
Controle excessivo não é simplesmente “jeito de ser”. Dependência emocional não é amor em excesso, são tentativas do psiquismo de organizar uma guerra interna que nunca foi simbolizada, a sociedade exige que você renuncie, renuncie impulsos, renuncie desejos, renuncie partes de si para ser aceito.
Isso faz parte da vida em comunidade. Mas quando essa renúncia não é consciente, ela não desaparece, ela se transforma em sintoma. E o sintoma é sempre uma solução improvisada para um conflito que você não conseguiu sustentar. Muita gente fala de paz mundial. Pouca gente fala de paz psíquica. É possível condenar a violência do mundo e, ao mesmo tempo, ser violento consigo. É possível criticar a intolerância social e não tolerar os próprios sentimentos. É possível apontar guerras externas enquanto se sabota por dentro.
A guerra externa é política, a guerra interna é estrutural.
E enquanto você não assumir responsabilidade pela sua própria batalha, continuará reagindo ao mundo como se ele fosse o único responsável pelo seu sofrimento.
Positividade não é negar a realidade.
Não é repetir frases prontas, não é fingir que está tudo bem.
Positividade e maturidade emocional é ter coragem de olhar para a própria sombra. Reconhecer os próprios conflitos, elaborar a própria dor. Quando isso acontece, algo muda. O mundo pode continuar em guerra. Mas você deixa de ser um campo de batalha. Eu deixo uma pergunta simples, mas profunda:
Qual conflito você ainda está evitando enfrentar dentro de si? Porque aquilo que você evita encarar acaba governando você? Talvez o maior ato de coragem, em tempos de guerra, não seja vencer o outro, mas sustentar o encontro consigo mesmo.



