Por Danilo Mathos
Existe uma mania curiosa de pegar tudo que é branco, africano ou afro-brasileiro e jogar no mesmo balaio chamado “Candomblé”. Fica prático, mas fica errado. E erro repetido vira ignorância com verniz cultural.
O chamado “colar de Gandhy”, usado pelos integrantes do Filhos de Gandhy, não é conta ritual de Candomblé. Não é fio de santo. Não é guia consagrada em fundamento litúrgico. É símbolo de um bloco afro, um afoxé que nasceu em Salvador, em 1949, inspirado na figura de Mahatma Gandhi, com uma proposta estética e política clara: paz, dignidade negra, resistência cultural e espiritualidade pública.
Confundir isso com indumentária religiosa tradicional é reduzir tanto o Candomblé quanto o próprio afoxé. Cada coisa tem seu lugar. E lugar é fundamento.
*O colar de Gandhy*
O colar dos Filhos de Gandhy é feito de contas predominantemente azuis e brancas, remetendo ao imaginário de paz e também a Oxalá, mas não é guia de iniciação, não indica cargo sacerdotal, não carrega obrigação ritual. Ele funciona como símbolo de identidade coletiva dentro do bloco, como signo de pertencimento a um movimento cultural afro-brasileiro.
É política, é estética, é espiritualidade expandida. Mas não é fundamento litúrgico de terreiro. Misturar os dois é confortável para quem olha de fora. Para quem vive dentro, não é a mesma coisa.
*A alfazema: perfume como limpeza simbólica*
Nos afoxés, especialmente no cortejo dos Filhos de Gandhy, a alfazema é borrifada nas ruas e nas pessoas. Aquilo não é apenas cheiro agradável para turista fotografar. É gesto simbólico.
A alfazema carrega a ideia de purificação, de suavização dos conflitos, de limpeza energética no campo coletivo. O perfume espalhado no ar cria um ambiente ritualizado em plena avenida. É como se dissesse: “Que o caminho esteja limpo, que a paz preceda o passo”.
Não se trata de um ebó específico nem de ritual fechado de terreiro. É um uso público, simbólico, pedagógico. É espiritualidade performada na rua. É ancestralidade andando com elegância.
*A pomba branca: paz como postura política*
A pomba branca, símbolo universal de paz, também aparece nesse contexto. Em blocos de afoxé, ela não é apenas figura decorativa. Representa a escolha consciente por uma estética da paz em meio à violência histórica sofrida pelo povo negro.
Quando um afoxé ocupa a rua com tambores, cânticos e alfazema, ele não está pedindo licença. Está afirmando existência.
A pomba branca simboliza uma paz ativa, não passiva. Não é silêncio diante da opressão. É a decisão de afirmar vida, cultura e espiritualidade sem reproduzir a lógica da destruição.
Em um país que perseguiu terreiros, proibiu tambores e criminalizou práticas africanas, colocar uma pomba branca na frente do cortejo é quase uma declaração pública: estamos aqui, e escolhemos viver.
*Afoxé não é folclore*
A palavra afoxé designa o “candomblé de rua”. Não no sentido de simplificação religiosa, mas no sentido de expansão cultural. É a música ijexá ganhando as avenidas. É o sagrado dialogando com o espaço público.
Reduzir tudo isso a “conta de Candomblé” ou “enfeite de carnaval” é preguiça intelectual. O bloco é movimento cultural afro-brasileiro com raiz religiosa, mas não é terreiro. O colar é símbolo identitário, não é guia de obrigação. A alfazema é gesto de limpeza simbólica coletiva. A pomba branca é afirmação política de paz e dignidade.
Quando entendemos essas distinções, respeitamos melhor tanto o Candomblé quanto os afoxés. Cada qual com sua função, sua força e sua beleza.
E talvez o ponto mais importante seja esse: símbolos importam. Eles educam. Eles constroem memória. Eles organizam pertencimento.
A alfazema perfuma a rua. A pomba branca aponta um horizonte. O colar identifica um corpo coletivo que escolheu existir com elegância.
Se vamos falar dessas coisas, que falemos com precisão. Porque ancestralidade não é acessório. É fundamento. 🌿🕊️



