Por Carla Perin
@cacaperin
A ansiedade de separação é um dos temas mais recorrentes na clínica veterinária comportamental.
Sob a ótica da Medicina Veterinária Sistêmica, ela não é vista apenas como um distúrbio individual do
animal, mas como uma manifestação do campo relacional no qual ele está inserido.
Na visão sistêmica, os animais são profundamente sensíveis às dinâmicas emocionais de seus tutores.
Eles percebem tensões, medos, inseguranças e vínculos interrompidos. Quando um tutor se ausenta,o animal não sente apenas a falta física, mas reage ao vazio emocional que já estava presente no sistema.
A ansiedade de separação pode se manifestar por vocalizações excessivas, comportamentos destrutivos,automutilação, alterações gastrointestinais ou agitação intensa. Porém, mais importante do que ocomportamento visível é compreender o que ele comunica.
Muitos pets que desenvolvem ansiedade de separação ocupam, inconscientemente, um lugar que nãolhes pertence no sistema familiar: o lugar de apoio emocional principal, de companhia exclusiva ou até de substituto afetivo. Quando isso acontece, a separação física é vivida pelo animal como ameaça de perda do sistema.
Segundo as Leis Sistêmicas de Bert Hellinger, todo sistema saudável precisa de ordem e hierarquia.
O tutor é o adulto responsável, e o animal ocupa o lugar de animal. Quando essa ordem se perde, o pet assume uma carga emocional maior do que pode sustentar.
Na prática clínica sistêmica, observa-se que, ao fortalecer a autonomia emocional do tutor e reorganizar os lugares no sistema, muitos quadros de ansiedade de separação diminuem ou se resolvem, mesmo sem intervenções comportamentais intensivas.
É fundamental compreender que o animal não está sendo “manipulador” ou “dependente por natureza”.
Ele está sendo leal ao sistema. A ansiedade surge como tentativa de manter o vínculo e garantir a sobrevivência emocional do grupo.
O caminho terapêutico sistêmico passa pelo resgate da segurança interna do tutor. Quando o humano confia na própria capacidade de estar inteiro, o animal também aprende que a separação não significa abandono.
Rotina, previsibilidade e limites claros ajudam o animal a relaxar, mas o principal fator de cura é a coerência emocional do tutor. O animal responde menos ao que é dito e muito mais ao que é sentido.
Ansiedade de separação não é sobre ausência. É sobre vínculo. Quando o vínculo está organizado, a separação se torna possível, segura e temporária.
Na Medicina Veterinária Sistêmica, cuidar da ansiedade de separação é cuidar do sistema como um todo.
Quando cada um ocupa seu lugar, o animal pode descansar — e o vínculo se torna leve.



