Por Eneida Roberta Bonanza
Durante quase todo o ano, muitas pessoas caminham tentando caber em versões aceitáveis de si mesmas. Controlam o riso, moderam a alegria, escondem a tristeza, diminuem o entusiasmo, silenciam desejos, regulam gestos, ajustam emoções para não parecerem “demais”. Existe uma pedagogia invisível ensinando que sentir intensamente é inadequado, imaturo ou exagerado.
Então chega o carnaval.
Subitamente, aquilo que antes parecia proibido torna-se permitido. Dançar sem motivo, cantar alto, abraçar desconhecidos, vestir cores vibrantes, experimentar personagens, expressar sensualidade, rir com liberdade, chorar sem vergonha, sentir o corpo vivo. Como se, por alguns dias, a sociedade dissesse: agora você pode sentir.
O mais curioso é perceber que não é o carnaval que cria essas emoções. Elas já estavam ali. O que o carnaval faz é apenas suspender temporariamente a censura interna que aprendemos a construir ao longo da vida.
A criança que um dia fomos não precisava de autorização para sentir. Ela ria alto, chorava quando doía, vibrava quando se encantava, corria quando sentia energia no corpo. Mas, aos poucos, fomos sendo ensinados a controlar, a conter, a ajustar, a reduzir. Não porque sentir fosse errado, mas porque o mundo muitas vezes não soube lidar com a intensidade humana.
O carnaval revela algo profundamente terapêutico: o problema não é a falta de alegria, de espontaneidade ou de expressão. O problema é a quantidade de permissões internas que foram retiradas ao longo do caminho.
Quando alguém diz que “se transforma” no carnaval, talvez não esteja se transformando. Talvez esteja apenas voltando, por alguns dias, a partes de si que nunca deveriam ter sido abandonadas.
A verdadeira cura emocional não está em viver permanentemente em estado de festa, mas em aprender a não precisar de uma autorização coletiva para sentir. É poder rir em uma terça-feira comum, emocionar-se sem pedir desculpas, celebrar pequenas vitórias, permitir que o corpo se mova quando pede movimento, permitir que o coração se expresse quando pede expressão.
O carnaval passa. A música diminui. As ruas silenciam. Mas fica uma pergunta profundamente terapêutica:
Quais emoções suas só aparecem quando existe permissão externa… e como seria sua vida se você começasse, aos poucos, a se autorizar a senti-las todos os dias?



