Por Paulinho Goetze
@paulinhogoetze
A morte do ator Chadwick Boseman na última sexta-feira, dia 28 de agosto, chocou todo o planeta. Lutando contra um câncer de cólon desde 2016, Chadwick filmou boa parte de seus filmes (inclusive o grande sucesso “Pantera Negra” que foi reprisado pela Rede Globo na segunda-feira, 31) no intervalo de cirurgias e sessões de quimioterapia.
Refletindo sobre a importância de um filme com quase totalidade de atrizes negras e atores negros e, nesse caso em especial, de um super-herói negro, pensei sobre minha infância. Eu, branco, sempre pude escolher ser o Thor ou o Capitão América, enquanto que meus amiguinhos negros, quase sempre, eram os vilões da brincadeira. Eu não via maldade nisso. Obviamente que, aos 8 anos, eu não problematizava o era “normal” ou “natural” (dentro de muitas aspas para a normalidade ou naturalidade). A gente aprende o racismo desde pequeno. Está tão enraizado na nossa sociedade que não nos damos conta. “É assim porque sempre foi assim”. É mentira! O racismo é aprendido todos os dias e, pior, é normalizado e normatizado. A gente não se questiona porque o sistema prisional tem maioria de pessoas pretas presas, por exemplo, dizem que é porque a maioria da população é negra, logo, proporcionalmente, a maioria das pessoas no cárcere acompanha essa lógica. Mas porque essa proporção não aparece nos cargos diretivos? Porque nessas posições a população negra é extrema minoria? É preciso enxergar o racismo e, mais do que isso, reconhecê-lo para que se possa combatê-lo.
A proporção de pessoas negras é imensamente menor em todos os espaços de destaque. Existe um apagamento da história de negras e negros que é refletido na falsa ideia de democracia racial descrita por Gilberto Freyre em “Casa Grande e Senzala” e propagada como se o processo de colonização do Brasil tivesse sido cordial. Não foi e não é. A falta de super-heróis negros no nosso imaginário também contribui para que o racismo seja construído e reproduzido todos os dias. As crianças crescem sem se enxergar nas oportunidades, por isso Chadwick Boseman é um símbolo, um espelho, assim como Viola Davis, Lupita Nyong’o, Danny Glover, Cuba Gooding Jr, Denzel Washington, Camila Pitanga, Ruth de Souza, Léa Garcia, Tais Araujo, Lázaro Ramos, isso pra citar algumas personalidades da dramaturgia. Mas também temos Maju Coutinho, que é sim uma heroína, um exemplo, uma possibilidade para tantas meninas negras que sonham em ser jornalistas e chegarem a âncora de um telejornal, ou ainda Lewis Hamilton, único piloto negro na Fórmula 1, grande vencedor das últimas temporadas, ou Sueli Carneiro, Jurema Werneck, Djamila Ribeiro, Carla Akotirene, intelectuais, acadêmicas, escritoras que estão escrevendo suas histórias e reescrevendo as histórias de outras tantas numa incansável “escrevivência”, como nos ensina Conceição Evaristo, poeta e escritora negra.
Chadwick Boseman deixou a possibilidade de meninos negros sonharem em ser heróis também, uma oportunidade que meus colegas de infância não tiveram naquela Escolinha de classe média. Tínhamos ainda menos exemplos negros naquela época em todo imaginário infantil: nos desenhos He-Man, Thundercats, Cavaleiros do Zodíaco, Homem-Aranha, Batman, Superman… nenhum herói negro. Nos brinquedos, nenhuma boneca negra, nenhum boneco negro. Na TV brilhavam Xuxa, Angélica, Mara Maravilha, Pat Beijo, nenhuma apresentadora negra.
As transformações vão ocorrendo de maneira lenta como é lenta a mudança de mentalidade da sociedade. Felizmente, até com a popularização da internet e o advento das redes sociais, mais referenciais negras e negros estão tendo visibilidade e mudando essa realidade desigual. Não à toa, o ator Lázaro Ramos escreveu em seu Instagram lamentando a morte de Boseman: “Obrigado por ser nosso Pantera negra. Obrigado por nos ajudar a sonhar mais um pouco e por sermos um pouco mais orgulhosos de quem somos. Obrigado, continuaremos por aqui a gritar wakanda forever e seu rosto estará junto e continuarei aqui querendo ser o T’challa.”
Representatividade importa!
Até a próxima quarta!
Fontes:
Imagem 1: Site MPR News publicado em 28 de Agosto de 2020




Parabéns!Adoro ler sua coluna.Nos transmite emoção ao ler cada parágrafo. OBRIGADA.
Que matéria incrível! Parabéns Paulinho há cada semana um conteúdo mais importante, atual e necessário
Que coluna maravilhosa , meus senhores!