Por Danilo Mathos
No Brasil, falar de Iemanjá é falar de memória, resistência, espiritualidade e pertencimento. Muito além da imagem popularizada da “rainha do mar”, Iemanjá representa uma força ancestral que atravessou o Atlântico junto com os povos africanos escravizados, reinventando-se em solo brasileiro sem perder sua essência. Aqui, ela se tornou símbolo de acolhimento, maternidade, proteção e continuidade da vida, especialmente nas tradições do Candomblé e da Umbanda.
De origem iorubá, Iemanjá é um orixá ligado às águas, inicialmente associada aos rios e à fertilidade. No Brasil, por um processo natural de adaptação cultural e espiritual, sua força foi profundamente conectada ao mar. O oceano, vasto e misterioso, passou a simbolizar o grande ventre da Mãe, onde tudo nasce, tudo é gestado e tudo retorna. É no mar que Iemanjá acolhe, embala, purifica e ensina.
O dia 2 de fevereiro, especialmente celebrado em diversas regiões do país, tornou-se um marco dessa devoção. Em cidades litorâneas, multidões se dirigem às praias para agradecer, pedir proteção, saúde, equilíbrio emocional, prosperidade e, acima de tudo, cuidado. Porque Iemanjá não é uma força que se acessa pelo medo ou pela barganha, mas pela confiança, pela entrega e pelo respeito.
Dentro da Umbanda e do Candomblé, Iemanjá ocupa um lugar central. Na Umbanda, ela é a grande mãe espiritual, regente das emoções, do amor maduro, da família e do amparo nos momentos de dor. No Candomblé, é um orixá de profunda hierarquia, senhora dos mares, da ancestralidade feminina e da continuidade da vida. Em ambas as tradições, ela é cultuada como força que ensina acolhimento sem fragilidade e firmeza sem dureza.
Oferendar a Iemanjá, portanto, não é apenas um ato ritual. É um gesto simbólico, espiritual e ético. É um diálogo com a natureza e com o sagrado. E esse diálogo precisa, cada vez mais, ser consciente.
Tradicionalmente, as oferendas a Iemanjá envolvem flores, alimentos simples, perfumes suaves, velas e elementos que remetem à beleza, ao cuidado e à gratidão. As cores mais associadas a ela são o branco, o azul-claro e os tons perolados, que simbolizam paz, serenidade, pureza emocional e fluidez. Flores brancas são as mais comuns, especialmente rosas, lírios, crisântemos e palmas, sempre frescas e naturais.
No entanto, é fundamental compreender que oferenda não é lixo ritualizado. O mar não é depósito espiritual, e Iemanjá não precisa de objetos que agridem a natureza para ouvir seus filhos. Espelhos, pentes de plástico, embalagens, bijuterias, objetos cortantes, isopor, garrafas e itens não biodegradáveis causam danos ambientais, colocam em risco a vida marinha e contradizem o próprio princípio de cuidado que essa força representa.
Quando se oferece algo a Iemanjá, deve-se perguntar antes: isso respeita o mar? Isso honra a vida?
Se a resposta for não, então não é oferenda. É agressão disfarçada de fé.
Hoje, o caminho mais coerente é optar por oferendas biodegradáveis, simples e simbólicas. Flores naturais soltas na água, frutas como coco, melancia ou pera (sempre sem embalagens), alimentos preparados com cuidado e depositados diretamente na areia ou em folhas naturais, perfumes naturais diluídos na água do mar, velas acesas fora da água, em local seguro, são formas muito mais alinhadas com uma espiritualidade madura e responsável.
O mais importante não é o que se leva, mas o que se coloca junto: intenção, respeito e consciência. Iemanjá escuta o coração, não o volume da oferenda.
E o que se pede a Iemanjá?
Pede-se equilíbrio emocional, proteção para a família, cura das dores do coração, força para atravessar processos difíceis, serenidade para lidar com as mudanças da vida. Pede-se acolhimento, mas também maturidade. Iemanjá não infantiliza. Ela ensina a cuidar e a ser cuidado.
Ao ir ao mar, o ideal é chegar com silêncio interno, fazer uma prece simples, agradecer antes de pedir e lembrar que o verdadeiro presente oferecido é a reverência. Não é necessário entrar na água, nem realizar gestos exagerados. Um pensamento sincero, uma oração consciente e um gesto respeitoso já estabelecem a conexão.
Como sacerdote de Umbanda e terapeuta holístico, acredito que este é um tempo de reeducação espiritual. Honrar os orixás hoje também significa proteger os elementos que eles regem. Não existe culto verdadeiro às águas sem compromisso com a preservação da vida.
Iemanjá é mãe. E mãe não quer ver seu corpo ferido em nome da devoção.
Que neste 2 de fevereiro, cada pessoa que se dirigir ao mar o faça com amor, consciência e responsabilidade. Que a fé caminhe junto com o cuidado. Que a tradição siga viva, mas também evolua. E que Iemanjá, senhora das águas, continue nos ensinando a fluir com respeito, verdade e equilíbrio.



