Por André Henrique
Existe uma ideia confortável de que a poluição é algo externo, distante, separado da nossa vida cotidiana. Algo que afeta florestas, oceanos e animais, mas que termina antes de chegar à mesa. Essa ideia é falsa. Os microplásticos atravessaram essa fronteira invisível. Eles não estão apenas no ambiente. Eles estão entrando nos organismos, circulando pelos ecossistemas e, inevitavelmente, chegando até nós.
Quando falamos que microplásticos percorrem a cadeia alimentar, não estamos usando uma metáfora. Estamos descrevendo um processo biológico real, silencioso e progressivo.
Tudo começa no microscópico
O ponto inicial dessa história é o plâncton, que são organismos microscópicos que flutuam na água e formam a base da vida aquática. Fitoplâncton e zooplâncton são responsáveis por sustentar praticamente toda a cadeia alimentar dos ecossistemas aquáticos.
O problema é que o plâncton não distingue alimento de microplástico.
Partículas microscópicas de plástico têm tamanho semelhante a algas e bactérias. Resultado: são ingeridas como se fossem comida. Nesse momento, o microplástico deixa de ser apenas um poluente ambiental e passa a se tornar um poluente biológico.
Esse é o primeiro degrau de uma escada que não para de subir.
Pequenos organismos, grandes consequências
Após o plâncton, entram em cena pequenos invertebrados aquáticos:
crustáceos
moluscos
larvas de insetos
pequenos peixes
Esses organismos se alimentam do plâncton contaminado e acumulam microplásticos em seus tecidos. Em muitos casos, as partículas permanecem no trato digestivo; em outros, podem atravessar barreiras biológicas e se alojar em órgãos.
Aqui ocorre um processo conhecido como bioacumulação: o contaminante se acumula dentro do organismo ao longo do tempo.
Quanto menor o animal, menor a capacidade de eliminar essas partículas.
A biomagnificação: quando o problema cresce junto com o predador
Peixes maiores se alimentam desses pequenos organismos. Predadores maiores comem esses peixes. E assim por diante.
Cada degrau da cadeia aumenta a carga de microplásticos.
Esse fenômeno é chamado de biomagnificação: a concentração do contaminante aumenta à medida que se sobe na cadeia alimentar.
Ou seja, um peixe grande pode carregar muito mais microplásticos do que dezenas de organismos pequenos juntos.
E são justamente esses peixes maiores que costumam chegar com mais frequência ao prato do consumidor.
Do oceano ao prato
Quando consumimos pescado, frutos do mar ou organismos aquáticos, não estamos ingerindo apenas proteínas, gorduras e minerais. Podemos estar ingerindo também:
microplásticos
partículas associadas a metais pesados
compostos químicos adsorvidos ao plástico
O plástico funciona como uma espécie de ímã químico, atraindo e transportando substâncias tóxicas presentes na água.
Assim, o problema deixa de ser apenas “engolir plástico”. Passa a ser ingerir um coquetel invisível de contaminantes.
Efeitos potenciais na saúde humana
A ciência ainda está desvendando os impactos exatos dos microplásticos no corpo humano. Mas alguns pontos já preocupam:
inflamações
estresse celular
possíveis alterações hormonais
interação com o sistema imunológico
transporte de contaminantes químicos
A grande questão é que não se trata de exposição pontual. Trata-se de exposição contínua, diária e cumulativa.
Ninguém consome microplástico uma vez só. Consome um pouco hoje, outro tanto amanhã, e assim sucessivamente.
A ilusão da distância
Existe um erro grave na forma como a sociedade enxerga a poluição: acreditar que ela termina quando “vai para o lixo” ou “vai para o rio”.
Na prática, estamos apenas empurrando o problema para um sistema que, cedo ou tarde, devolve tudo.
O oceano não é um sumidouro.
O peixe não é um filtro.
O corpo humano não é uma barreira impenetrável.
Tudo está conectado.
A crítica necessária: estamos comendo o resultado das nossas escolhas
A presença de microplásticos na cadeia alimentar é o retrato de um modelo econômico baseado em:
excesso de embalagens
produtos descartáveis
baixa durabilidade
pouco controle pós-consumo
Não é um acidente. É consequência.
Quando escolhemos conveniência acima de responsabilidade, terceirizamos os impactos para o ambiente. Mas o ambiente sempre encontra um caminho de volta.
E ele voltou pelo prato.
Conclusão: a cadeia alimentar virou um espelho
O que jogamos fora retorna como alimento contaminado.
O que ignoramos volta como risco sanitário.
O que normalizamos vira rotina invisível.
Microplásticos na cadeia alimentar não são um problema futuro. São um problema presente.
Enquanto não reduzirmos drasticamente a produção de plástico e mudarmos nossa relação com o consumo, continuaremos alimentando um ciclo onde o lixo sobe na cadeia alimentar e desce até nós.
No fim, a pergunta não é se estamos ingerindo microplásticos.
A pergunta é: até quando aceitaremos isso como normal?
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André Henrique de Rezende Almeida
@BIOLOGOANDREHENRIQUE
Biólogo CRBIO 02: 60.945
Engenheiro Ambiental CREA: ES-055476/D



