Por Paula Silveira
Autores: Drica Parreira e Walter Alves Benedito
@fbrn_oficial
Era uma manhã de domingo, em pleno verão na “Ilha da Magia”, a Praia da Galheta estava maravilhosa. O mar, além de refrescar do calor, fazia seu papel principal para uma naturista: acolher, envolver e conectar o corpo já cheio de rugas e cicatrizes à natureza a qual pertence. Depois de um tempo dentro da água, um livro, um suco bem gelados e agora o sol a secar o corpo e trazer tranquilidade para aquele momento.
Num rápido olhar para o celular, a fim de verificar as horas, também observo algumas mensagens. “Bora” verificar se está tudo bem no mundo têxtil e então uma surpresa: a escola de Samba Chega Mais, sediada em Vitória-ES, convidava naturistas para participar de seu desfile de Carnaval a ser realizado no sambódromo da cidade, conhecido popularmente como “Sambão do Povo”. A escola iria apresentar, naquele ano de 2020, pouco tempo antes de estourar a Pandemia de Covid19, a história de Luz Del Fuego, artista, dançarina e a pioneira do naturismo no Brasil. Para os naturistas estava reservado o último carro alegórico, representando a Ilha do Sol (RJ), onde Luz morou por alguns anos, montou o primeiro Clube Naturista do Brasil e também onde foi brutalmente assassinada por dois pescadores, por tê-los denunciado por crimes ambientais.
O coração disparou. Carnaval é uma grande festa e como já componente em uma ala de uma escola de samba em São Paulo, a oportunidade de juntar Naturismo e Carnaval parecia algo impossível de recusar. Nos grupos de whatsapp o assunto repercutiu e alguns naturistas passaram a se organizar para viajar para a capital do Espírito Santo, a fim de homenagear nossa protagonista capixaba. Naturistas do Espírito Santos foram extremamente acolhedores, dando suporte aos viajantes e alguns também participaram do tão esperado momento na avenida.
O dia chegou. Nossa fantasia era apenas um “tapa sexo” – acessório indispensável para o desfile, já que o regulamento não permitia nudez total – óleo de amêndoa, purpurina e confete. O camarim foi a própria rua, na área de concentração da escola, ao lado do nosso carro alegórico. Todos se ajudaram e a cada minuto que passava, a expectativa crescia.
O desfile começou, como nosso carro era o último e estava bem atrás, teve uma certa dificuldade para romper uma subida; os naturistas logo se juntaram ao staff da agremiação e empurraram o carro alegórico até o ponto onde os guindastes, também chamados de “gruas”, subiriam os naturistas. Que emoção foi escutar “agora os pelados”, num tom de brincadeira e leveza.
O carro ultrapassou a marcação inicial do sambódromo e partir de então, a festa estava no seu auge. Sabíamos que não estávamos em um ambiente naturista, onde fotos e filmagens são apenas registradas após autorização. Estávamos no carnaval de Vitória, com a arquibancada e camarotes cantando junto a história de vida de nossa representante. O público enlouqueceu quando percebeu que tinham pessoas nuas. Na verdade, quase nuas, pois o tal acessório obrigatório incomodava muito quem já está acostumado com o estado de liberdade.
O momento foi mágico. Entre estrofes e refrão, os sentimentos de gratidão e felicidade tomavam conta.
Aquilo era real. Vários naturistas representavam este estilo de vida, mas em especial, dois amigos de São Paulo não se continham por dentro. As duas paixões (Naturismo e Carnaval) tinham realmente se juntado e eles sorriam e cantavam, querendo que o mundo parasse, que o relógio do tempo quebrasse, para aquele desfile nunca acabar.
O desfile findou e na dispersão o desejo de ficar persistia. Ninguém queria descer do carro alegórico, pois sabíamos que a partir daí, as roupas seriam necessárias.

“A experiência de estar com o corpo praticamente nu, coberto de purpurina e confete foi o ápice da liberdade, autoaceitação e conexão com a energia da festa. O carnaval funciona como um espaço temporário onde barreiras sociais se desfazem, permitindo uma vivência mais despida de preconceito” – Walter Alves Benedito, associado do SPNAT – Naturistas da Grande São Paulo.
Para os naturistas, a experiência foi inesquecível, mas precisamos pensar em algumas questões para a sociedade em geral.

Por que, no carnaval, a nudez é permitida sem questionamentos e quando queremos um espaço para nosso descanso, lazer e integração com a natureza se torna tão difícil a aceitação do corpo nu?
A nudez do carnaval ainda é sexualizada, erotizada, o que torna o cenário totalmente diferente de nossa filosofia naturista e aí vem outra pergunta: a nudez erotizada não é combatida neste período e a simples nudez social, sem conotação sexual, no dia a dia, precisa ser?
Mídias sociais: @fbrn_oficial
Whatsapp: +55 11 99759-5116



