Por Paula Silveira
Autor: Fabrizio Martins Tavoni – Doutorando em Educação na Unicamp, Mestre em Ciência Política pela UFSCar, Graduação em Ciências Sociais pela UEL e é naturista.
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Em tempos de culto à boa forma, filtros digitais e performance constante, talvez o que mais incomode não seja o corpo exposto, mas o corpo livre. A recente tentativa de proibição do naturismo na Praia do Pinho, em Balneário Camboriú, ajuda a revelar uma contradição curiosa da nossa vida contemporânea: aceitamos sem grandes conflitos a mercantilização permanente do corpo, mas reagimos com espanto quando ele simplesmente existe: sem função, sem sedução e sem venda.
A nudez que escandaliza não é a que aparece nas propagandas, nas redes sociais ou nos padrões estéticos amplamente difundidos. Essa nudez é cuidadosamente enquadrada, editada e disciplinada. A que provoca desconforto é outra: a nudez não sexualizada, cotidiana, atravessada por marcas do tempo, da diversidade e da imperfeição. É justamente essa a proposta do naturismo.
Do ponto de vista histórico e social, o corpo nunca foi neutro. Michel Foucault já demonstrava como os corpos são produzidos e regulados por discursos morais, jurídicos e institucionais, que definem o que pode ser visto, exibido ou ocultado (FOUCAULT, 2014). Nesse sentido, o naturismo tensiona esses dispositivos ao retirar o corpo da lógica da vigilância estética e do julgamento constante.
Em praias naturistas, convivem corpos jovens e envelhecidos, magros e gordos, com ou sem deficiência, sem que isso represente inadequação. Essa experiência, que para muitos é vivida como libertadora e terapêutica, confronta diretamente uma cultura que associa valor pessoal à aparência e à performance. Judith Butler lembra que os limites do que consideramos aceitável são sempre construções discursivas e políticas (BUTLER, 2019), e o corpo naturista escapa dessas molduras.
A tentativa de proibição da prática na Praia do Pinho foi oficialmente justificada por razões administrativas e de segurança. No entanto, ignora que o naturismo é regulamentado no Brasil desde 1988 e praticado no país há mais de um século, com regras claras de convivência e respeito, conforme reconhece a Federação Brasileira de Naturismo (FBrN).
O discurso moralizante que associa nudez à indecência costuma operar de forma silenciosa. Mesmo quando não invoca explicitamente argumentos religiosos, carrega valores conservadores travestidos de neutralidade administrativa, o que Foucault chamaria de moral religiosa secularizada (FOUCAULT, 2019).

Há ainda um elemento menos visível, mas igualmente importante: o econômico. A retirada de áreas naturistas frequentemente coincide com projetos de “requalificação” urbana, valorização imobiliária e privatização simbólica do espaço público. O corpo livre, não performático e não vendável, não combina com resorts, condomínios de luxo e cidades pensadas como vitrines.
Jean Baudrillard já alertava que o capitalismo depende da produção contínua de insatisfação, transformando até o corpo em mercadoria (BAUDRILLARD, 2011). Byung-Chul Han complementa ao mostrar como somos pressionados a nos otimizar o tempo todo: física, emocional e esteticamente (HAN, 2015). O naturismo, ao propor aceitação em vez de correção, interrompe esse ciclo.

Hoje, o Brasil conta com apenas sete praias naturistas oficialmente reconhecidas. Caso a proibição da Praia do Pinho se consolide, restariam apenas seis em todo o litoral. A FBrN obteve um habeas corpus coletivo que garante, provisoriamente, o direito à permanência dos naturistas na areia e no mar até o julgamento do mérito da ação.
Mais do que um debate jurídico, o episódio levanta uma pergunta incômoda: por que um corpo que não quer vender nada, provar nada ou seduzir ninguém provoca tanto medo? Talvez porque ele nos lembre que a liberdade corporal, e a possibilidade de paz com o próprio corpo, é maior do que fomos ensinados a imaginar.
Referências
BAUDRILLARD, Jean. A sociedade de consumo. Lisboa: Edições 70, 2011.
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Senado Federal, 1988.
BUTLER, Judith. Corpos que importam: os limites discursivos do “sexo”. São Paulo: n-1 edições, 2019.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. 42. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber. 8. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2019.
FEDERAÇÃO BRASILEIRA DE NATURISMO (FBrN). O que é naturismo. Disponível em: https://www.fbrn.org.br. Acesso em: 11 jan. 2026.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
SIBILIA, Paula. O show do eu: a intimidade como espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 2016.
Paula Silveira é presidente da FBrN – Federação Brasileira de Naturismo, desde 2021 e presidente da associação SPNAT – Naturistas da Grande São Paulo desde 2020.É naturista desde 1997 e é integrante da CLANAT – Comissão Latino-Americana de Naturismo, foi Conselheira Maior da Região Sudeste de 2017 a 2020. Representou o Brasil no Congresso Mundial de Naturismo do México em 2024, no ELAN – Encontro Latino-Americano de Naturismo na Colômbia em 2022 e no Equador em 2020.
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