Por Dra. Jessica Lima
Tricologista
Quando um paciente chega ao consultório relatando queda intensa de cabelo, a primeira pergunta quase sempre é: “Qual vitamina está faltando?”
Mas a resposta nem sempre está na falta. Muitas vezes, está no excesso — ou melhor, na inflamação.
Existe um fator ainda pouco discutido fora do meio clínico, mas extremamente relevante na tricologia moderna: a inflamação silenciosa.
Trata-se de um processo inflamatório crônico e de baixo grau que ocorre no organismo sem sintomas evidentes. A pessoa não sente dor, não apresenta febre, não percebe sinais claros. Ainda assim, o corpo permanece em estado constante de alerta metabólico.
Esse cenário pode estar associado a estresse crônico, privação de sono, alimentação rica em ultraprocessados, resistência à insulina, alterações hormonais, disbiose intestinal e até ao desequilíbrio de micronutrientes.
O folículo piloso é uma das estruturas mais metabolicamente ativas do corpo humano. Ele depende de equilíbrio hormonal, boa oxigenação, aporte adequado de nutrientes e ausência de inflamação sistêmica para manter a fase de crescimento ativa.
Quando o organismo mantém um estado inflamatório persistente, o ciclo capilar sofre impacto direto. A fase anágena (crescimento) pode ser encurtada, enquanto a fase telógena (queda) pode ser antecipada. O resultado é o aumento do eflúvio telógeno, piora da alopecia androgenética e maior fragilidade dos fios.
Na prática clínica, é comum encontrar pacientes com exames considerados “normais”, mas com marcadores inflamatórios discretamente alterados. Avaliar apenas hemograma e vitamina D não é suficiente em muitos casos. Marcadores como Proteína C Reativa (PCR), homocisteína e ferritina dentro de um contexto metabólico ampliado podem revelar um processo inflamatório ativo.
A ferritina elevada, por exemplo, nem sempre significa apenas bons estoques de ferro. Em determinadas situações, pode atuar como reagente de fase aguda, sinalizando inflamação. A PCR elevada, mesmo que discretamente, já indica que o organismo está reagindo a algum fator inflamatório.
Ignorar esses detalhes pode significar tratar apenas o sintoma — e não a causa.
É por isso que tratar queda capilar vai muito além da prescrição de suplementos ou aplicação de ativos tópicos. Exige análise sistêmica, correção metabólica, estratégia personalizada e acompanhamento.
A tricologia contemporânea deixou de ser apenas estética. Hoje, ela é integrativa, clínica e fundamentada em investigação.
Cabelo não é apenas imagem. É um biomarcador visível do que acontece internamente.
Enquanto a inflamação permanecer ativa, a queda tende a persistir.
E tratar a causa é sempre mais eficaz do que silenciar o sintoma.
Dra. Jessica Lima
Tricologista Clínica
Instagram: @jessicalimatricologista



