Por Paula Silveira
Autor: Gustavo M. Sá
jornalista, naturista e aprendiz atento da vida humana
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Há representações do corpo, no cinema e na literatura, que ajudam a compreender algo que o naturismo pratica cotidianamente: a ideia de que o corpo nu pode ser uma narrativa por si só. Não uma narrativa espetacular, carregada de intenção, mas uma narrativa silenciosa, que emerge quando o corpo é devolvido ao básico — à presença. A arte, nesse sentido, oferece pistas para entender por que o naturismo não se limita a um modo de estar sem roupas, mas a uma forma de reorganizar as relações que construímos com o corpo, com o outro e com a sociedade.
O sueco Bergman, por exemplo, nunca usou a nudez como ornamento. Segundo os cinéfilos de plantão, nos raros momentos em que ela aparece, é quase sempre uma tentativa de retirar excessos — barulho, discurso, defesa — para que reste apenas o humano. Essa busca por essencialidade serve de espelho para o naturismo: um ambiente em que os corpos não competem, não disputam atenção e não precisam desempenhar um papel. A nudez não pretende explicar nada; apenas revela aquilo que, de tão simples, costuma passar despercebido.
Essa ideia de despojar o corpo de significados artificiais encontra ecos em diversas obras que recusam o ideal polido pelo consumo. Quando a arte aposta no corpo real — com as marcas, as irregularidades e as histórias que o constituem — ela se aproxima da lógica naturista. No naturismo, essa presença não editada do corpo aparece de modo ainda mais direto: não há ângulos estratégicos, poses ou filtros. Há convivência. E essa convivência, justamente por ignorar padrões, acaba produzindo um tipo de normalidade que a cultura contemporânea raramente autoriza.
A literatura também contribui para esse imaginário. Clarice Lispector, quando utiliza a nudez como recurso ficcional, toca num ponto de vulnerabilidade que não é física, mas existencial. Em muitas de suas personagens, despir-se significa suspender os papéis, deixar à mostra aquilo que não se controla. É impossível não relacionar isso ao ambiente naturista, onde a ausência de roupas altera, de maneira quase imperceptível, a forma como as pessoas conversam, se observam e se aproximam. Não porque a nudez exponha, mas porque ela simplifica.
Susan Sontag, ao analisar as fotografias de Diane Arbus em acampamentos nudistas, chamou atenção para algo decisivo: a nudez, quando vivida sem intenção dramática, deixa de ser acontecimento. Torna-se cotidiano. Barthes (teórico que conheci quando tinha 18 anos) talvez diria que isso devolve à imagem seu “grau zero”: nada quer impressionar, nada quer narrar além da própria presença do corpo.
É nesse ponto que arte e naturismo se encontram. Não por afinidade estética, mas porque ambos revelam o que permanece quando retiramos camadas: os sentidos, os gestos, o espaço compartilhado. O corpo, sem as mediações habituais, não precisa provar nada. Ele apenas sustenta a possibilidade de uma convivência mais direta — e talvez mais honesta.
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