Paulo Roberto Reis
A figura do pai passou por transformações significativas ao longo dos anos. Por muito tempo, o modelo de pai estava associado apenas ao papel de provedor financeiro da casa e, consequentemente, dos filhos. Dessa forma, o pai estava dispensado dos cuidados afetivos com os seus filhos. As representações sociais de autoridade e lei permaneciam como espaços privilegiados dos homens, a partir de uma concepção patriarcal. Tal ideia transmitida como herança da antiga burguesia fazia uma cisão entre o lar e o trabalho, e sublinhava papéis distintos entre os sexos masculino e feminino. Enquanto a mulher mãe cuidava da casa e dos filhos, o homem pai tinha como função a sustentação da família por meio do trabalho. Essa redução do papel do pai trouxe prejuízos históricos, como, a ausência paterna.
Atualmente, há um desmonte da lógica patriarcal. Agora cresce a cultura onde o pai compartilha de determinadas funções que antes eram destinadas exclusivamente à mãe. As contribuições dos movimentos feministas, o aumento do número de divórcios, a inserção das mulheres no mercado de trabalho, o índice elevado de pais que não vivem com seus filhos, bem como a própria flexibilização e relativização do papel do homem são alguns dos fatores que ajudam a explicar o novo fenômeno: o envolvimento paterno. Em síntese, esse conceito de envolvimento paterno é a participação efetiva do pai na vida dos seus filhos em forma de cuidado, recreação, educação, satisfação com a paternidade e qualidade na relação pai – filho.
Ora, ninguém nasce pai. Não há uma fórmula pronta. No entanto, paternidade é um constructo que envolve afeto e cuidado. Nesse sentido, a pessoa torna-se pai, por meio do envolvimento, acessibilidade e responsabilidade. Paternar envolve uma relação direta com o filho/filha. Nem toda pessoa entra no processo da paternidade, se assim pensarmos. Ser genitor é uma coisa, outra coisa é ser pai. Paternidade não é apenas um gancho biológico, aliás não é isso. O que determina a paternidade é a qualidade e quantidade do envolvimento do pai na vida do filho.
A ausência paterna em famílias nucleares é a situação de muitas pessoas. Não ter contato com o pai pode trazer lacunas. E essa ausência pode se dar contraditoriamente diante de uma presença. Não basta apenas a pessoa está no lugar de pai se não cumpre com a função paterna. Apesar da resistência de muitas pessoas em assumirem a paternidade, o jogo tem virado aos poucos. A boa notícia é que, ultimamente, a figura paterna está mais presente, embora reconheçamos que estamos muito distantes do ideal. Mesmo com a timidez, o pai tem se preocupado e se envolvido mais com a vida dos filhos.
Hoje os pais estão mais presentes, colaborando e dividindo responsabilidades com as mães, além de formarem vínculos mais consistentes com os filhos. Essa é uma construção de paternidade ativa, capaz de suscitar mais qualidade no envolvimento entre pais e filhos. De acordo com estudos recentes, crianças que crescem com a participação e envolvimento do pai tendem a um desenvolvimento mais saudável, com maior índice de autoestima e segurança para enfrentar os desafios na vida. O fato, em si, é que papai está mais presente.
Reflexão autoral de Paulo Roberto Santos Reis Soares, mestrando em Estudos de Linguagens (UNEB), graduado em Psicologia e Teologia (UCSAL), pós-graduado em Gerontologia e Terapia Cognitiva-Comportamental (TCC), e pós-graduando em Neuropsicologia. Atua como psicólogo clínico, com foco na saúde mental da pessoa idosa prestando atendimento online e presencial; psicólogo das organizações e do trabalho e palestrante.
Referência
Silva, Milena da Rosa; Piccinini, Cesar Augusto. Sentimentos sobre a paternidade e o envolvimento paterno: um estudo qualitativo. Estudos de Psicologia I Campinas I 24(4) I 561-573 I outubro – dezembro, 2007. Disponível em: https://www.scielo.br/j/estpsi/a/Pr4ZP7DtFj7dvyQD8XmdpvR/?format=pdf&lang=pt Acesso em 08 de agosto de 2024, às 22h.
IMAGEM: Leonardo Reis e Davi Reis. Fotógrafa @suzaneverber.fotografia
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