Não digo com isso que o processo se resume à relação com a família, mas é algo que certamente deve ser considerado quando falamos de transfobia — que é, muitas vezes, um dos efeitos desse olhar do Outro diante da reestruturação.
Durante esse longo caminho, muitas coisas podem vir a mudar, de acordo com o que o indivíduo anseia. No entanto, o direito humano à autodeterminação e à dignidade são conquistas relativamente recentes na história da militância trans — assim como o amparo legal que hoje se tem para legitimar essas vivências.
Até o ano de 2018, por exemplo, não era possível iniciar o processo de transição documental — em que o nome social passa a ter reconhecimento legal e social — sem que a pessoa tivesse realizado uma cirurgia de redesignação sexual. Uma exigência que não necessariamente corresponde ao desejo de todas as pessoas trans. Assim, retirava-se o direito à identidade àquelas que não se adequavam à visão hegemônica sobre gênero e corpo.
E o que essa discussão tem a ver com família?
Bom, a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) aponta, em seus dossiês, que entre 80% a 90% das pessoas trans experienciam abandono familiar, frequentemente associado a situações de violência física, psicológica e, em alguns casos, sexual. Esse abandono apresenta inúmeros riscos associados à marginalização subsequente — como evasão escolar, consumo de substâncias e prostituição. Uma realidade recorrente em muitas vidas. O que isso evidencia? Que, de alguma forma, sim, a família está no núcleo das ações em cadeia que atravessam essas vivências.
Com o processo de transição de um sujeito inserido em um grupo social — que, aqui, tomamos como exemplo a família —, se faz necessária uma transição coletiva. Não do mesmo modo, é claro, mas em níveis ideológicos, subjetivos, existenciais. Quando se afirma esse lugar de mudança, é preciso compreender que reconhecer e acolher as necessidades de um familiar é o que perpetua o vínculo com essa pessoa, a mantém num lugar de afeto e possibilita a manutenção da base de apoio, evitando que ela fique desamparada ou em situação de vulnerabilidade.
É importante dizer que, muitas vezes, essas mudanças podem ser inicialmente difíceis para a adaptação das relações. No entanto, é fundamental compreender que nem sempre nossas expectativas serão atendidas e que, para que não haja o rompimento familiar, são necessárias também mudanças internas ao sujeito.
Não se restrinja à ideia de que você, enquanto pai ou mãe, não tem responsabilidade no distanciamento de seu filho. Estude, leia, vá à terapia. Às vezes, nos deparamos com características nos outros que nos causam desconforto, mas não por eles estarem necessariamente errados — e sim porque algo se movimenta no âmago de nossa psique, dizendo mais sobre nós do que sobre eles.
Em termos bem claros e simples: não basta amar. É preciso reconhecer.



