Por Eduardo Marques, Psicólogo.
@edumarquespsi
Em meio a guerras, disputas políticas, hiperdiagnósticos e alto custo de vida, surge um cenário de desesperança e anseio nas experiências de vida da atualidade. Com isso, se apresentam queixas e sintomas comuns à população geral, em específico a ansiedade e a depressão.
Temos hoje uma alta histórica referente a esses diagnósticos, que muitas vezes, para além de nomear a angústia sentida por pacientes e familiares, geram uma marca identitária. Perante a sociedade, essa marca pode imprimir sobre o sujeito uma sensação de menos-valia, como subproduto de preconceitos e da falta de informação em nível macro social sobre essas condições.
No entanto, faz-se necessário questionar primeiramente a causa desses sintomas, mapear suas origens e compreender o lugar do sintoma — assim como do diagnóstico — no processo de vida do indivíduo que por eles é atravessado.
O autor sul-coreano radicado na Alemanha, Byung-Chul Han, aponta em seus livros Psicopolítica (2014) e Sociedade do Cansaço (2015) que existe uma relação direta entre essa fadiga sociorelacional e psíquica com o contexto socioeconômico em que vivemos — nomeado por ele de “capitalismo tardio”, ou late stage capitalism. Em suas obras, Han afirma que a lógica neoliberal imprime sobre o indivíduo o status de empresa — ou empreendedor de si —, encarregando-o de atribuições tradicionalmente associadas à estrutura formal de trabalho, como contabilidade, administração, previdência, plano de saúde, férias e folgas remuneradas.
Seguindo essa lógica, o indivíduo-empresa se torna responsável por uma infinidade de encargos que não se limitam à sua função laboral. Com isso, ultrapassa as recomendações de saúde do trabalhador, se incumbindo de horas extras sem fim que extenuam a jornada — que, por si só, já representa um acréscimo significativo nos níveis de estresse. O tempo de qualidade, o ócio criativo, o convívio familiar — tudo isso se perde em nome da produtividade.
Esse cenário distópico, para além de representar um risco à saúde mental do indivíduo, afeta suas relações sociais e o distancia do senso de coletividade e comunidade. Essa lógica inflama dinâmicas de poder em contextos laborais, sociais e identitários, intensificando desigualdades e promovendo isolamento.
Para além desses fatores, vivenciamos hoje uma instabilidade geral no bem-estar social: altos custos de vida, serviços públicos sucateados e uma sobrecarga emocional que se agrava diante da crise climática, das ameaças de guerra, da polarização política e da presença constante das redes sociais — que, muitas vezes, vendem “momentos reais” em detrimento da vivência real. Casos como a precarização de entregadores de aplicativos, o burnout entre professores da rede pública ou a explosão de conteúdos de autoajuda voltados ao desempenho pessoal são apenas algumas expressões concretas dessa lógica adoecedora.
É muita coisa, não é? Pois bem — acredito que esse seja justamente o ponto comum a se considerar. Esse mar de informações, queixas, insatisfações e mal-estar generalizado inunda o campo do bem-estar e afoga a saúde mental das massas, afetando a sociedade como um todo. Sim, hoje temos mais acesso à psicologia e à saúde mental do que gerações anteriores, o que possibilita maior reconhecimento dos diagnósticos. No entanto, é preciso se perguntar: será que as pessoas estão, de fato, se dando conta de seus processos ansiosos e depressivos? Ou será que estamos todos sofrendo, juntos, por conta de um sintoma sistêmico e macro social?
Referências:
Han, B.-C. (2014). Psicopolítica: Neoliberalismo e as novas técnicas de poder (P. C. de Souza, Trad.). Vozes.
Han, B.-C. (2019). Sociedade do cansaço (A. S. Ribeiro, Trad., 4ª ed.). Vozes.
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