Por Eduardo Marques, Psicólogo.
@edumarquespsi
Creio que esse conceito não seja familiar para a grande maioria dos leitores, no entanto, pode vir a ser muito familiar para aqueles que o sentiram. Coloco aqui uma pergunta importante: você já sentiu o desejo de inércia? De retornar a um ponto de partida, um início onde não se sente a angústia, o medo, o cansaço do dia a dia? E em termos mais práticos e rotineiros, aquele hábito contemporâneo de *doomscrolling* (passar horas vendo conteúdo nas redes sociais de maneira crônica)? Identifica a presença dessa experiência no dia a dia?
Bom, o desejo por trás desse hábito se constitui enquanto o princípio de nirvana, algo que Freud qualifica inicialmente no âmbito da pulsão de morte, onde nos encontramos desejantes a nível inconsciente por um *halt*, uma interrupção em nossa vida, um desejo de não existência — algo associado com o Thanatos (instinto de morte) em contraposição ao Eros (instinto de vida, libido). No entanto, ao ser conceitualizado enquanto algo divergente da pulsão de morte, se aponta na literatura que o princípio de nirvana está associado com o lugar de equilíbrio entre ambas as forças previamente suscitadas, regulando e mitigando as pulsões.
O termo Nirvana, para além de nomear uma banda grunge dos anos 90, se origina na tradição budista, se associando com o estado de elevação espiritual atingida através de meditação e consequentemente desligamento de fatores carnais da existência — alimentação, desejo, sexo, sono, inveja, ambição, necessidades básicas e sentimentos humanos de uma forma geral — para que se alcance o estado de Buda (que caso não saibam, não se situa como uma única pessoa, mas um objetivo em termos de estados de iluminação). De forma geral, o ato de alcançar o nirvana significa desligamento da condição mundana em que os humanos se encontram — morte do Ego (Eu em latim, e também termo empregado por Freud para delimitar uma de nossas esferas do funcionamento inconsciente).
E como vemos isso em nossas vidas? Uma pergunta importante perante a temática. Essa agência reguladora entre as pulsões se manifesta através do princípio do prazer, que em termos simples pontua que estamos sempre enquanto indivíduos, vivenciando o desprazer, que se rompe quando temos um momento inicial de prazer. A partir desse momento buscamos fugir do desprazer para viver mais momentos de prazer. Nesse caminho entre prazer e desprazer, o que determina algo enquanto prazeroso é a libido, que é moldada com base nas experiências de vida do sujeito, definindo o que para ele se apresenta enquanto prazeroso, e o levando a fazer investimentos libidinais naquilo que o satisfaz.
E é justamente aqui que o Princípio de Nirvana entra em cena, atuando quase como um maestro da economia psíquica. Seu papel não é ditar a melodia principal (tarefa do conflito entre Eros e Thanatos), mas regular o volume da orquestra interna. Sua função é garantir que o ruído do desprazer não seja tão ensurdecedor a ponto de nos paralisar, nem que o silêncio sedutor da inércia nos faça desistir completamente da música da vida.
Voltemos ao exemplo do doomscrolling. Ao fazê-lo, não estamos verdadeiramente em busca de prazer ou nova informação. Estamos, na realidade, operando sob o comando do Princípio de Nirvana: buscamos uma estimulação constante e de baixo impacto que funcione como um ruído branco, anestesiando-nos de angústias, tédios ou demandas mais profundas e complexas. É uma tentativa de “zerar” a tensão interna através de um empobrecimento consciente. O celular, nesse contexto, transforma-se em uma chupeta mental para adultos.
Mas então, como diferenciar uma pausa saudável de uma fuga nirvânica? A diferença sutil, porém crucial, está no resultado final. O descanso genuíno, o ócio criativo e até a procrastinação eventual nos recarregam. Eles são uma parada estratégica para seguir a viagem. Já a ação regida predominantemente pelo Princípio de Nirvana nos esvazia. É como drenar todo o combustível e ficar parado no acostamento, olhando passivamente para a vida que passa. A sensação posterior não é de renovação, mas de vazio, culpa ou entorpecimento.
O convite final da psicanálise, portanto, não é para eliminar esse princípio — isso seria impossível —, mas para reconhecê-lo em ação. Quando a vontade irresistível de “desligar tudo” surgir, em vez de ceder automaticamente a ela, podemos nos fazer uma pergunta simples, porém profundamente transformadora: “O que estou tentando não sentir agora?”
Este questionamento é o primeiro e mais poderoso passo para trocar a anestesia pela elaboração. É o movimento heroico de transformar a energia da pulsão de morte em combustível para Eros: pode se tornar uma conversa difícil adiada, o início de um projeto, a busca por uma sessão de terapia, ou simplesmente a coragem de sentar-se em silêncio consigo mesmo. A meta não é alcançar o nirvana, mas aprender a dançar com as tensões inevitáveis da existência, encontrando nelas não apenas dor, mas também a centelha para a criação, a conexão e, paradoxalmente, o verdadeiro prazer de estar vivo.



