Por Carla Perin
@cacaperin
À primeira vista, “Zootopia” parece apenas um filme infantil sobre animais vivendo em uma grande cidade moderna. Mas, para quem vê o mundo através de uma lente sistêmica — como fazemos na Medicina Veterinária Sistêmica e na Terapia Humano-Animal — o filme revela algo muito mais profundo.
Zootopia fala de sistemas, de instinto, de papéis sociais, de exclusões, de forças invisíveis que influenciam comportamentos. É praticamente uma constelação em forma de animação.
1. Todos pertencem ao sistema — e o sistema funciona melhor quando ninguém é excluído
Em Zootopia, sempre que um grupo é excluído (como os predadores), todo o sistema entra em desequilíbrio.
Isso ecoa diretamente uma das Leis Sistêmicas de Hellinger:
➡ todos têm direito a pertencer.
Na vida real, isso se manifesta quando:
• um tutor rejeita parte da história do animal
• ignora um comportamento natural
• tenta “encaixar” o pet em um papel que não é dele
• ou quando o próprio tutor tem exclusões na sua família e o animal começa a manifestar isso. Zootopia nos lembra que um sistema só é saudável quando todos são vistos.
2. Instintos não são defeitos — são parte da natureza
No filme, predadores são tratados como perigosos apenas por sua natureza. A cidade tenta controlar e suprimir seus instintos, e isso gera adoecimento coletivo.
Isso também acontece com pets na vida real:
• cães que não podem farejar
• gatos que não podem explorar
• animais reprimidos em sua expressão natural
• tutores que tratam comportamentos instintivos como “problemas”
Na visão sistêmica, quando tentamos anular a essência do animal, o vínculo se enfraquece.
Zootopia evidencia isso ao mostrar que instinto não é ameaça, é identidade.
3. Papéis familiares: quem está ocupando qual lugar?
A coelha Judy quer ser policial para provar valor; Nick, a raposa, desempenha o papel que o sistema lhe impôs.
Ambos mostram como papéis distorcidos geram sofrimento.
Com animais, vemos isso o tempo todo:
• pets que viram “filhos emocionais”
• animais que ocupam o papel de protetores do tutor
• pets que tentam equilibrar dores do sistema familiar
• adoções movidas por carência emocional ou substituição
Zootopia traz a pergunta essencial da terapia sistêmica:
➡ Quem estou pedindo que você seja para mim?
4. A cura vem quando enxergamos o outro além dos rótulos
No filme, Judy só consegue se relacionar com Nick quando o vê como aquilo que ele realmente é — não como o que a sociedade dizia.
Na relação tutor–animal, isso é fundamental:
Quando o tutor vê o animal por inteiro — sua força, natureza, história e instinto o vínculo se torna mais verdadeiro e mais leve.
5. Zootopia nos lembra que convivemos em um grande sistema vivo
No fundo, o filme é um convite para que a gente observe:
• nossas projeções
• nossos julgamentos
• nossas expectativas
• e a forma como lidamos com diferenças
Assim como Zootopia, nossas casas também são sistemas.
E nossos pets participam deles profundamente — às vezes, trazendo equilíbrio, às vezes revelando algo que precisa ser visto.
Carla Perin
Médica Veterinária Sistêmica • Terapeuta Multiespécie
@cacaperin
Contato: (14) 99776-6120



