Por Eneida Roberta Bonanza
Há pessoas que não param porque alguém as impediu.
Param porque acreditaram no barulho.
O provérbio antigo diz: os cães ladram e a caravana passa.
Mas a pergunta terapêutica que ele nos convida a fazer é outra:
em que momento você deixou de ser caravana e passou a discutir com os cães?
Na vida adulta, muitas interrupções não vêm de fora.
Elas nascem dentro.
É a autocrítica constante.
O autojulgamento silencioso.
A sensação de que nunca é suficiente, nunca está pronto, nunca está bom.
É a mente criando ruído enquanto a alma pede movimento.
Outras vezes, o freio vem do olhar do outro.
Da crítica explícita ou velada.
Da expectativa alheia.
Da necessidade de aprovação.
Da dificuldade de sustentar escolhas quando alguém desaprova.
E é nesse ponto que a codependência começa a se revelar — não como um diagnóstico distante, mas como um modo de funcionar emocionalmente.
A codependência não é apenas “cuidar demais”.
É permitir que o estado emocional, o problema, a dor ou o caos do outro definam o seu ritmo, suas decisões e a sua realidade.
É quando o desconforto alheio se torna mais importante do que a sua própria direção.
É quando você pausa a própria caravana para tentar silenciar o latido do outro.
O codependente, muitas vezes, não percebe que parou.
Ele chama de empatia.
De responsabilidade.
De amor.
Mas, internamente, vive em alerta, tentando ajustar-se para não desagradar, não frustrar, não provocar conflito.
O problema é que quem vive ajustando o passo ao barulho externo deixa de escutar o próprio chamado interno.
A caravana tem destino.
Os cães apenas reagem.
Quando você se paralisa pela crítica do outro, algo em você ainda acredita que precisa ser autorizado para seguir.
Quando você se paralisa pela própria autocrítica, algo em você ainda confunde perfeição com merecimento.
E nenhuma dessas crenças sustenta movimento de vida.
O amadurecimento emocional acontece quando você compreende que:
– nem todo julgamento é sobre você
– nem todo problema do outro é seu
– nem todo barulho merece resposta
– e nem toda pausa é prudência — às vezes é medo disfarçado
Há uma diferença profunda entre responsabilidade emocional e codependência.
Responsabilidade respeita limites.
Codependência dissolve limites.
A caravana madura não acelera para provar nada.
Ela simplesmente não para.
Ela entende que o caminho não é negociável com o ruído.
Que o propósito não se explica para quem não caminha.
E que seguir em frente, muitas vezes, é o gesto mais amoroso consigo mesmo.
Talvez hoje a pergunta não seja:
“Por que falam de mim?”
Mas sim:
“Por que eu permito que isso me pare?”
Porque, no fim, os cães sempre latrarão.
A questão é se você escolhe ser eco…
ou movimento.
E a vida, silenciosamente, sempre responde ao movimento.



