Por Cris Oliveira
@psicoterapeutacrisoliveira
Março é, por tradição, um mês de reflexão sobre a jornada feminina, suas conquistas e os desafios que ainda persistem. Entre tantas pautas, uma das mais silenciosas e, ao mesmo tempo, mais impactantes para a saúde da mulher é a pressão para conter as próprias emoções. Desde cedo, muitas de nós aprendemos a engolir o choro, disfarçar a raiva e responder com um sorriso quando, por dentro, uma tempestade se forma. Mas o que a neurociência nos diz sobre o custo de manter tudo guardado?
A resposta curta é: o custo é alto. E a solução é mais simples do que parece: falar.
O Cérebro em Desequilíbrio: Amígdala vs. Córtex Pré-Frontal
Dentro do nosso cérebro, temos uma pequena estrutura em forma de amêndoa chamada amígdala. Ela é o nosso alarme de incêndio, o centro de processamento rápido das emoções, especialmente o medo e a ansiedade. Quando você sente uma emoção forte, a amígdala dispara, preparando seu corpo para reagir. É uma herança evolutiva essencial para a sobrevivência.
No entanto, temos também o córtex pré-frontal, localizado na parte da frente do cérebro. Ele é o nosso “CEO”, responsável pelo raciocínio, planejamento e, crucialmente, pela regulação emocional. É ele quem acalma a amígdala, dizendo: “Calma, isso não é uma ameaça real. Respire.”
O problema é que, quando reprimimos o que sentimos, a amígdala continua em alerta máximo, mas o córtex pré-frontal não consegue fazer seu trabalho de regulação de forma eficaz. A emoção fica “presa” no sistema límbico, gerando um estado de estresse crônico que, não por acaso, está associado a maiores índices de ansiedade e depressão em mulheres, conforme aponta a Organização Mundial da Saúde [1].
“Nomear para Domar”: A Ciência de Colocar Sentimentos em Palavras
É aqui que a mágica acontece. Estudos de neuroimagem, liderados por pesquisadores como Matthew Lieberman da UCLA, mostram que o simples ato de nomear uma emoção — colocar em palavras o que estamos sentindo — muda a atividade cerebral [2]. Ao dizer “estou me sentindo sobrecarregada” ou “estou com raiva”, você ativa o seu córtex pré-frontal.
Essa ativação tem um efeito direto e mensurável: ela diminui a atividade da amígdala [3]. É como se, ao nomear o “monstro”, você acendesse a luz e percebesse que ele não é tão assustador assim. Esse processo, conhecido na neurociência como “affect labeling” (ou rotulação de afeto), é uma forma poderosa de autorregulação emocional.
Um Convite à Expressão
Neste Mês da Mulher, o convite que a neurociência nos faz é para resgatar a coragem de sentir e de falar. Expressar suas emoções não é sinal de fraqueza ou descontrole; é um ato de inteligência emocional e autocuidado, uma ferramenta de regulação que seu cérebro está pronto para usar.
Seja conversando com uma amiga, escrevendo em um diário — uma prática conhecida como escrita expressiva, também com fortes evidências científicas de benefícios [4] — ou buscando o apoio de um profissional, dar voz ao que você sente é o primeiro passo para acalmar a tempestade interna e retomar o controle.
Permita-se falar. Seu cérebro, e sua saúde, agradecem.
Psicoterapeuta, Hipnoterapeuta, Pós Graduada em Neurociências e Mestranda em Neurociências
Referências
[1] World Health Organization. (Vários relatórios). Gender and women’s mental health.
[2] Lieberman, M. D., et al. (2007). Putting feelings into words: affect labeling disrupts amygdala activity in response to affective stimuli. Psychological Science.
[3] Torre, J. B., & Lieberman, M. D. (2018). Putting feelings into words: Affect labeling as implicit emotion regulation. Emotion Review.
[4] Pennebaker, J. W. (1997). Writing about emotional experiences as a therapeutic process. Psychological Science.



