Por Eneida Roberta Bonanza
Existe um equívoco muito comum quando falamos sobre cura.
Muitas pessoas imaginam que curar é esquecer. Que curar é apagar o que aconteceu. Que curar é fazer com que a dor desapareça como se nunca tivesse existido.
Mas o corpo não funciona assim.
O corpo é um arquivo vivo.
Cada experiência atravessa nossos sentidos, percorre nosso sistema nervoso, altera hormônios, ativa circuitos cerebrais e, silenciosamente, deixa registros. Não apenas na memória consciente, mas também na memória emocional e fisiológica.
Por isso, a cura verdadeira não acontece quando tentamos negar o passado.
Ela acontece quando o corpo aprende que aquele perigo já terminou.
Durante experiências difíceis, o organismo entra em estado de sobrevivência. O cérebro primitivo assume o comando e ativa mecanismos de proteção: aumento do cortisol, aceleração do coração, tensão muscular, hiperatenção.
Esse estado é útil quando existe uma ameaça real.
O problema surge quando o corpo continua reagindo como se o perigo ainda estivesse presente.
É nesse momento que a história deixa de ser apenas passado e passa a viver dentro da biologia.
Muitas pessoas acreditam que estão presas a lembranças. Na verdade, muitas vezes estão presas à resposta fisiológica que ficou condicionada a essas lembranças.
O corpo aprende.
Se algo foi vivido como dor, abandono, rejeição ou medo, o sistema nervoso passa a vigiar o mundo com mais intensidade. Ele tenta evitar que aquilo aconteça novamente.
Mas essa vigilância constante cobra um preço.
Ela gera tensão crônica, inflamação silenciosa, fadiga, ansiedade, dificuldade de dormir, dificuldade de confiar e até dificuldades de prosperar ou se relacionar.
Porque um corpo em alerta permanente não consegue viver em expansão.
Por isso, curar não significa apagar a memória.
Curar significa ensinar ao corpo uma nova forma de existir diante daquela memória.
Quando uma pessoa começa um processo terapêutico profundo, algo muito interessante acontece.
A história continua existindo. Mas o corpo deixa de reagir da mesma maneira.
Aquilo que antes gerava aperto no peito começa a perder intensidade. O que antes provocava medo começa a gerar compreensão. O que antes mantinha o sistema nervoso em guerra começa a se transformar em aprendizado.
O passado permanece como experiência. Mas o corpo deixa de carregá-lo como ameaça.
Essa reorganização acontece em vários níveis.
No cérebro, novas conexões neurais começam a se formar. No sistema nervoso, o eixo de estresse começa a se regular. Nos tecidos do corpo, a tensão que antes era constante começa a diminuir.
É como se o organismo finalmente compreendesse algo fundamental: aquilo já passou.
Esse momento é profundamente libertador.
Porque muitas pessoas passam anos tentando mudar a própria história, quando na verdade o que precisa ser transformado é a forma como o corpo responde a ela.
O passado não precisa desaparecer para que a vida possa florescer.
Ele precisa apenas encontrar um novo lugar dentro de nós.
Um lugar onde ele não governa mais nossas emoções, nossas escolhas e nosso estado fisiológico.
Quando isso acontece, algo muito bonito surge.
A memória deixa de ser dor e passa a ser sabedoria.
O corpo deixa de lutar contra o que foi vivido e começa, finalmente, a caminhar em direção ao que ainda pode ser vivido.
Porque a cura verdadeira não apaga a história.
Ela devolve ao corpo a liberdade de escrever novos capítulos.
Eneida Roberta Bonanza
Fisioterapeuta, terapeuta integrativa, escritora e CEO da CHER – Clínica de Saúde Humanizada.



