Por Cris Oliveira
@psicoterapeutacrisoliveira
Ela não faz barulho, não cai no chão e, diferente da tradicional, não precisa ser esterilizada. Basta um toque na tela e, em segundos, a criança silencia, se acalma, se distrai. Parece solução — mas pode estar moldando silenciosamente o cérebro em desenvolvimento.
Vivemos uma era em que o acesso às telas começa cada vez mais cedo. Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, muitas crianças passam mais de 3 a 5 horas por dia em frente a dispositivos eletrônicos — um número muito acima do recomendado. Para crianças menores de 2 anos, a recomendação é zero exposição. Ainda assim, a realidade mostra o contrário.
Do ponto de vista da neurociência, o impacto é profundo.
O cérebro infantil está em fase intensa de desenvolvimento, especialmente o lobo pré-frontal — região responsável por funções como controle de impulsos, tomada de decisões, atenção, planejamento e regulação emocional. E é justamente essa área que mais sofre com a superexposição às telas.
Quando uma criança passa horas diante de estímulos rápidos, coloridos e altamente recompensadores (como vídeos curtos e jogos), o cérebro entra em um padrão de gratificação imediata. Isso interfere diretamente no sistema dopaminérgico, reduzindo a tolerância ao tédio e dificultando a construção de habilidades essenciais, como paciência, foco e autocontrole.
E aqui está a armadilha silenciosa: acreditamos que a tela acalma, quando, na verdade, ela desorganiza. O que vemos como tranquilidade é apenas uma pausa superficial do comportamento — por dentro, o cérebro permanece hiperestimulado. Após o uso, muitas crianças retornam ainda mais agitadas, irritadas e ansiosas, justamente porque o sistema nervoso não aprendeu a se regular, apenas a se distrair.
Estudos indicam que o uso excessivo de telas pode estar associado a atrasos no desenvolvimento da linguagem, dificuldades de atenção, aumento da impulsividade e até prejuízos na capacidade de resolver problemas. Em termos simples: quanto mais a criança é “regulada” pela tela, menos ela aprende a se autorregular.
A chamada “chupeta virtual” não ensina a lidar com emoções — ela anestesia. Ao invés de permitir que a criança experimente o desconforto, elabore sentimentos ou desenvolva estratégias internas, a tela oferece uma fuga imediata. E o cérebro aprende rápido: “sempre que eu me sinto mal, busco estímulo externo.”
O problema não está apenas no tempo, mas na substituição de experiências fundamentais. Brincar, explorar, interagir, se frustrar, imaginar — tudo isso fortalece conexões neurais essenciais para a vida adulta. A tela, quando em excesso, rouba esse espaço.
Isso não significa demonizar a tecnologia, mas sim trazer consciência. O cérebro não nasce pronto — ele é moldado pelas experiências que oferecemos.
E aqui fica a reflexão: estamos acalmando nossas crianças… ou estamos, adoecendo elas!
Psicoterapeuta, Hipnoterapeuta, Pós Graduada em Neurociências e Mestranda em Neurociências



