Por João Costa Bezerra
@psico.joaocosta
O debate sobre a chamada “masculinidade em crise” tem ganhado força em um contexto marcado por transformações nas relações de gênero. No entanto, é preciso ir além da leitura de que homens são apenas vítimas desse processo. A crise existe, mas expressa tensões mais profundas entre a perda de referências tradicionais, a manutenção de privilégios e a dificuldade de adaptação a novas formas de existir.
Do ponto de vista psicológico, muitos homens foram socializados em modelos rígidos, marcados pelo controle emocional, pela lógica do domínio e pela negação da vulnerabilidade. Esses padrões não apenas limitam a expressão subjetiva, como também podem gerar sofrimento psíquico, dificuldades na construção de vínculos e baixa tolerância à frustração. Ainda assim, reconhecer esse contexto não elimina a responsabilidade individual: a forma como cada sujeito responde a esse desconforto continua sendo central.
Nesse cenário, a misoginia não pode ser compreendida apenas como consequência de dor ou insegurança, mas também como uma resposta ativa que reforça desigualdades. Ao deslocar frustrações pessoais para o campo social — culpabilizando mulheres ou mudanças culturais, alguns homens evitam o confronto com suas próprias limitações e preservam posições de poder.
Sob uma perspectiva histórica e filosófica, a masculinidade não é fixa, mas uma construção que se transforma ao longo do tempo. Isso significa que a ideia de “crise” não representa apenas um momento de perda, mas também uma oportunidade de revisão. Questionar práticas, reconhecer privilégios e construir formas mais éticas de se relacionar passa a ser não apenas possível, mas necessário.
Esse processo, no entanto, não é simples. Envolve lidar com frustrações, reconhecer falhas e abrir mão de certezas que, muitas vezes, estruturaram a própria identidade. Ao mesmo tempo, abre espaço para ampliar as formas de ser homem, incorporando o cuidado, a escuta e relações mais horizontais.
A masculinidade em crise, portanto, não deve ser vista apenas como um problema a ser resolvido, mas como um ponto de inflexão. Entre a repetição de padrões violentos e a construção de novas possibilidades, existe um caminho que exige implicação. Mais do que vitimização, trata-se de responsabilidade: a capacidade de rever práticas, sustentar mudanças e construir outras formas de existência.
Mini currículo
João Costa Bezerra é psicoterapeuta, com atuação clínica voltada ao público infantil, adolescente e adulto. Utiliza abordagens como Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), Terapia Comportamental Dialética (DBT), Terapia do Esquema e Psicologia Analítica de Jung. Desenvolve trabalho com regulação emocional, manejo de comportamentos e psicoeducação, incluindo contextos de neurodivergência e saúde mental.
Para mais informações: WhatsApp (11) 98436-1978
Referências
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FERREIRA, F. M.; OLIVEIRA, C. P. O movimento feminista e a crise da masculinidade. Cadernos de Psicologia, 2019.
FRANÇOIA, C. R. et al. Configurações de masculinidade(s) e bem-estar psicológico dos homens. Cadernos de Gênero e Diversidade, 2021.
DE BAÉRE, F.; ZANELLO, V. Suicídio e masculinidades: uma análise por meio do gênero. Psicologia em Estudo, 2020.
DA SILVA JUNIOR, J. B. A virilidade e a masculinidade sempre estiveram em “crise”. Bagoas, 2024.
RIBEIRO, E. C. S. et al. Masculinidade hegemônica e possibilidades de desconstrução. Revista Brasileira de Estudos da Homocultura, 2023.



