Por João Costa Bezerra
@psi.joaocosta
E aí, você tem dormido bem ou só está “apagando” de exaustão?
Em um contexto onde produtividade é frequentemente confundida com valor pessoal, o sono acaba sendo tratado como um detalhe. Mas, do ponto de vista psicológico e neurobiológico, ele está longe de ser secundário. Dormir é um processo ativo de regulação emocional, organização cognitiva e manutenção da saúde mental.
Durante o sono, o cérebro realiza uma espécie de “faxina”: filtra informações irrelevantes, consolida memórias e reorganiza experiências emocionais. Esse processo permite que, ao acordar, tenhamos mais clareza para interpretar o mundo e responder às demandas do dia a dia.
Quando esse sistema falha, não é apenas o corpo que sente. A mente entra em sobrecarga.
Manuais diagnósticos e a literatura clínica contemporânea apontam que alterações no sono não são apenas sintomas acessórios — elas aparecem como critérios diagnósticos, fatores de risco e elementos de manutenção em diversos transtornos, como depressão, ansiedade e transtornos do humor.
Na prática clínica, isso se traduz de forma bastante concreta: pacientes que dormem mal apresentam maior irritabilidade, redução da capacidade atencional, prejuízos na memória e um raciocínio mais lento. Emoções tornam-se mais intensas e duradouras, enquanto pensamentos tendem a se tornar mais rígidos, negativos e autocríticos.
Na psicoterapia, há uma observação recorrente: estados fisiológicos, como a privação de sono, influenciam diretamente a forma como a pessoa percebe a si mesma, o outro e o mundo. Um cérebro cansado não apenas processa menos, ele interpreta pior.
Isso significa que, diante de uma mesma situação, uma pessoa descansada tende a acessar alternativas, relativizar e responder com maior flexibilidade. Já uma pessoa privada de sono frequentemente interpreta de forma mais ameaçadora, definitiva e negativa.
Não é incomum que a privação de sono produza sintomas que simulam psicopatologias: desatenção, esquecimentos, impulsividade, baixa autoestima e instabilidade emocional. Esses sinais, quando mal interpretados, podem reforçar crenças disfuncionais como “eu não dou conta”, “tem algo errado comigo” ou “estou piorando”.
Cria-se, assim, um ciclo delicado: o indivíduo dorme mal, passa a funcionar pior, interpreta isso como falha pessoal e aumenta ainda mais sua autocrítica e ansiedade — fatores que, por sua vez, prejudicam ainda mais o sono.
O que está em jogo, portanto, não é apenas descanso, mas a qualidade da relação que a pessoa estabelece consigo mesma.
Talvez a pergunta mais importante não seja “o que há de errado comigo?”, mas sim:
quanto do que você tem pensado sobre si mesmo é, na verdade, o resultado de uma mente que não teve tempo suficiente para se reorganizar?
Dormir não é luxo.
É condição básica para pensar, sentir e existir com mais equilíbrio.
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Referências
CABELLINO, Luíza Fricks et al. Privação do Sono e Saúde Mental: Impactos Neurobiológicos e Comportamentais. Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences, [s. l.], v. 7, n. 4, p. 660-672, 2025.
MARQUIOLI, Vanessa Souza Fassarela. A influência do sono na memória e emoção. 2011. Monografia (Especialização em Neurociências) – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2011.
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João Costa Bezerra
Psicoterapeuta especializado em saúde mental de crianças, adolescentes e adultos.
Atuo com TCC, DBT, Terapia do Esquema e Psicologia Analítica, ajudando pessoas a desenvolverem regulação emocional, flexibilidade e autonomia para lidar com seus desafios psicológicos.
Para saber mais entre em contato (11) 98436-1978
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