Por Kamila Gimenes
@dra.kamilagimenes
Quando pensamos em saúde, lembramos de exames de sangue, alimentação e atividade física. Mas existe um nível mais profundo — e muitas vezes ignorado — que sustenta tudo isso: a forma como nossas células produzem energia.
Dentro de cada célula do corpo existem pequenas estruturas chamadas mitocôndrias. Elas funcionam como verdadeiras “usinas”, transformando os nutrientes que você consome em energia utilizável. Essa energia é o que permite desde algo simples, como levantar da cama, até funções mais complexas, como pensar, regular hormônios e manter o sistema imunológico funcionando adequadamente.
O ponto importante é: quando as mitocôndrias não funcionam bem, o corpo inteiro sente.
Na prática, isso pode aparecer de forma silenciosa e inespecífica. Cansaço constante, dificuldade de concentração, queda de desempenho físico, sono não reparador, maior sensibilidade ao estresse e até dificuldade para emagrecer são alguns dos sinais mais comuns. Muitas vezes, a pessoa faz exames tradicionais e tudo parece “normal”, o que gera frustração e a sensação de que o problema não está sendo compreendido.
É aí que entra uma forma diferente de olhar para a saúde: avaliar o funcionamento do metabolismo, e não apenas valores isolados no sangue.
Em vez de perguntar apenas “quanto você tem” de determinado nutriente, essa abordagem busca entender “como seu corpo está usando” esses nutrientes. E isso pode ser observado através de substâncias chamadas metabólitos.
Os metabólitos são como “rastros” das reações químicas que acontecem dentro do organismo. Quando uma etapa do metabolismo não está funcionando bem, esses rastros se acumulam — e podem ser medidos.
Um dos exames mais úteis nesse contexto é a análise de ácidos orgânicos na urina. Apesar do nome técnico, a ideia é simples: ele avalia produtos intermediários da geração de energia. Quando certos ácidos aparecem aumentados, isso pode indicar que alguma etapa do processo está mais lenta ou “travada”.
Por exemplo:
– Quando o corpo não consegue produzir energia de forma eficiente, ele pode recorrer a vias alternativas menos eficazes — o que leva ao aumento de substâncias relacionadas à fermentação, como o lactato.
– Alterações em outros metabólitos podem sugerir que o “ciclo de produção de energia” está sobrecarregado ou funcionando de maneira incompleta.
– Em alguns casos, o problema não está na estrutura da mitocôndria, mas na falta de nutrientes essenciais para que ela funcione bem.
E aqui entra um ponto crucial: nem sempre a deficiência aparece nos exames tradicionais.
Vitaminas do complexo B, magnésio, ferro e outras substâncias são fundamentais para a produção de energia. Porém, mesmo com níveis considerados normais no sangue, o corpo pode não estar conseguindo utilizá-los de forma eficiente. O resultado? A célula continua “cansada”, mesmo quando teoricamente não deveria estar.
Esse tipo de avaliação permite uma visão muito mais personalizada. Em vez de recomendações genéricas, é possível identificar exatamente onde está a dificuldade e atuar de forma direcionada — seja com ajustes alimentares, suplementação específica ou mudanças no estilo de vida.
E isso nos leva a um ponto que muita gente prefere ignorar: hábitos diários impactam diretamente a função mitocondrial.
Privação de sono, excesso de estímulos à noite, estresse crônico, alimentação desorganizada e sedentarismo são alguns dos principais fatores que prejudicam a produção de energia no nível celular.
Por outro lado, boas práticas têm efeito direto:
– Dormir bem regula a produção de energia
– Exercício físico estimula a formação de novas mitocôndrias
– Alimentação equilibrada fornece os “combustíveis” certos
– Redução do estresse diminui o desgaste metabólico
A grande mudança aqui é de perspectiva: sair de uma medicina que olha apenas para doenças já instaladas e caminhar para uma abordagem que identifica desequilíbrios antes que eles se tornem problemas maiores.
No fim das contas, entender a função mitocondrial é entender o próprio conceito de energia no corpo humano. E energia não é luxo — é pré-requisito para viver bem.
Se você se identificou com esses sintomas, vale investigar além do básico. Nem sempre “normal” no exame significa funcionamento ideal.
Kamila Gimenes é médica, graduada pela Universidade de Caxias do Sul, com pós-graduação em Nutrologia pela Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN), pós-graduanda em Medicina do Exercícío e do Esporte. Possui formação complementar em doenças relacionadas ao envelhecimento. Atual com enfoque em medicina metabólica, com capacitação em metabolômica e bioquímica clínica.
Clínica Integrare – Erechim/RS
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