Por João Costa Bezerra
@psi.joaocosta
É natural admirar. Desde cedo, aprendemos observando: como falar, agir e reagir. Em muitos casos, nem percebemos, mas partes importantes da nossa forma de ser foram moldadas a partir de pessoas que, em algum momento, representaram força, sucesso, segurança ou até sobrevivência emocional.
O ponto é: nós não internalizamos apenas qualidades isoladas. Nós absorvemos o “pacote completo”.
Ao admirar alguém confiante, por exemplo, podemos acabar incorporando também a arrogância. Ao valorizar alguém independente, podemos aprender, sem perceber, a nos tornar emocionalmente distantes. Ao enxergar força em alguém que nunca demonstra fragilidade, podemos começar a reprimir as próprias emoções.
O cérebro não faz uma curadoria refinada do que copia. Ele aprende por associação.
Se aquela pessoa parece “dar certo” na vida, seus comportamentos, mesmo os mais disfuncionais, ganham uma espécie de validação implícita. E quando esses comportamentos funcionam em algum nível (evitam conflitos, geram respeito, dão sensação de controle), eles se consolidam e se reforçam.
Com o tempo, aquilo que começou como imitação vira identidade.
Deixa de ser “eu aprendi isso” e passa a ser “eu sou assim”.
É aqui que mora o risco.
Porque, sem revisão, passamos a viver guiados por padrões que não foram escolhidos, mas herdados.
E nem sempre esses padrões nos fazem bem.
O trabalho psicológico não está em evitar a internalização — isso é inevitável. Está em desenvolver a capacidade de revisar, questionar e refinar aquilo que foi aprendido.
Separar o que é valor do que é distorção.
Manter a essência, mas mudar a forma.
Ser assertivo, sem ser agressivo.
Ser independente, sem se desconectar.
Ser forte, sem precisar se endurecer.
No fundo, a pergunta mais importante talvez não seja “quem você admira?”, mas:
Você admira a pessoa…
ou o impacto que ela causa?
Porque, muitas vezes, comportamentos tóxicos não são sinais de força — são apenas atalhos de efeito.
E viver de atalhos pode custar caro demais quando o objetivo é construir uma identidade saudável, flexível e consciente.
Referências bibliográficas
BANDURA, Albert. Aprendizagem social e desenvolvimento da personalidade. São Paulo: Livros Técnicos e Científicos, 1979.
BECK, Aaron T. Terapia cognitiva e transtornos emocionais. Porto Alegre: Artmed, 1997.
YOUNG, Jeffrey E.; KLOSKO, Janet S.; WEISHAAR, Marjorie E. Terapia do esquema: guia de técnicas cognitivo-comportamentais inovadoras. Porto Alegre: Artmed, 2008.
LINEHAN, Marsha M. Terapia comportamental dialética: guia prático para o tratamento de transtornos emocionais. Porto Alegre: Artmed, 2010.
Mini currículo
João Costa Bezerra
Psicoterapeuta especializado em saúde mental de crianças, adolescentes e adultos.
Atua com TCC, DBT, Terapia do Esquema e Psicologia Analítica, ajudando pessoas a desenvolverem regulação emocional, flexibilidade e autonomia para lidar com seus desafios psicológicos.
Para mais informações: (11) 98436-1978



