Por Natalia Toneto – Psicóloga.
É muito comum ouvir que depressão é falta de Deus. E eu fico aqui pensando o que leva a população a acreditar que os diagnósticos psiquiátricos têm a ver com fé. Sinceramente, uma coisa não anula a outra. Ter fé é muito importante e de forma alguma devemos descartar a sua colaboração emocional para quem a tem, mas também não é nada justo atribuir que uma pessoa que não tem a mesma fé religiosa ou a mesma intensidade seja rotulada como alguém que está “adoecido” porque não acredita em nada ou em Deus. Eu sempre tento abordar esse assunto com o máximo de respeito e sinceridade que tenho, pois para mim uma coisa nunca vai anular a outra. Pelo contrário. Todos nós podemos acreditar no que quisermos e manifestar a fé religiosa como quiser, o que nunca achei saudável e não vou concordar é com o fanatismo, isso sim pode adoecer gravemente pessoas ou até mesmo colocá-las em risco. Eu tive casos na clínica que, infelizmente, tinham um conteúdo religioso extremista e em um desses casos quase custou a vida de uma jovem. Antes de criticar ou sugerir algo com “boas intenções”, busque pensar sobre as fragilidades que já atingem essa pessoa e o quanto deve ser difícil administrar suas dores. E pode ter certeza: muitas pessoas que buscam a psicoterapia para se cuidarem, muitas vezes estão cheias de fé, acreditam fielmente de que “milagres” podem acontecer e isso tem uma grande importância.
Embora saibamos que existe uma rixa entre a religião e a fé, não podemos descartar que as duas têm a sua importância e para algumas pessoas, sendo elas amantes da ciência como eu, também não a descartam. Como o contrário também é uma verdade, pessoas de muita fé acreditam que a ciência tem sua importância e, segundo Ribeiro (2011):
Apesar dos percalços, ciência e fé compartilham características comuns. São atividades racionais, com campo de atuação bem definido – mas gostam de aventurar-se fora dele, nem sempre com propriedade. E em seus fundamentos buscam, a seu modo, a felicidade do ser humano. E, sempre presente, mesmo que despercebido, o assombro perante os mundos exterior e interior. Estruturas de poder existem em ambas. E como todo poder exercido por humanos, há falhas, muitas vezes clamorosas, e exemplos deploráveis de má conduta no seu exercício.
Ou seja: é uma luta desnecessária ficar apontando e criando situações entre essas duas temáticas. Afinal, o que você ganha em achar que uma doença (seja ela qual for) é resultado da falta de fé? Por um acaso a sua fé te faz melhor ou ter menos problemas do que outras pessoas? Não, claro que não! Tenho certeza que ela te dá a possibilidade de ter dias com mais esperança no futuro, te faz acreditar que tudo pode ser diferente e em muitas situações te impulsiona a buscar o melhor. É como aquela frase: “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”. Então se algum dia pessoas com depressão, ansiedade e qualquer outro diagnóstico tiverem um contato direto com você, busque acolher, orientar o que é possível e no seu íntimo emane a sua fé em forma de gentileza.
Caso esse e outros temas que você tem visto no @portalsomdepapo te interessarem, entre em contato comigo no @psi.nataliatonetolima. Será um prazer falar com você.
Abraços e até breve!
Referência:
MUNDIM, Eduardo Ribeiro. Bioética, ciência e fé. Rev Med Minas Gerais [Internet], v. 21, n. 3, p. 348-52, 2011. <https://www.rmmg.org/exportar-pdf/181/v21n3a15.pdf> Acesso em: nov. 2024.



