Por Jéssica Monteiro Lima
@psicologa_jessicamonteirolima
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Ela já tinha expectativa de conhecer o seu bebê
Refletia sobre o nome
Pensava nas roupas, no quarto, nos planos.
Em alguns casos, havia exames, tratamentos, tentativas e expectativas construídas ao longo do tempo. Mas, em algum momento, esse caminho foi interrompido.
E junto com a perda, surgiram emoções e sentimentos difíceis de nomear como tristeza, vazio, culpa, incapacidade, revolta, desespero, raiva e, muitas vezes, silêncio.
Nem toda maternidade chega ao colo. E, quando uma gestação é interrompida, um bebê é perdido, ou quando um positivo não chega existe um luto que nem sempre é reconhecido socialmente, mas que pode ser profundamente doloroso. O luto perinatal envolve perdas que acontecem durante as tentativas de engravidar, gestação, no parto e após o nascimento.
Cada uma dessas experiências carrega histórias, vínculos e expectativas que foram construídos. Esse vínculo começa antes mesmo da confirmação da gestação, no desejo, nos planos e na esperança. Por isso, quando a perda acontece, não se trata apenas da ausência do bebê, mas também da ruptura de um futuro imaginado.
A dor no luto perinatal não depende do tempo de gestação. Algumas mulheres relatam sofrimento intenso em perdas nas primeiras semanas de gestação, nas tentativas sem sucesso de transferências de embriões durante os tratamentos de fertilidade, enquanto outras enfrentam o impacto de despedidas após meses de gestação ou após o nascimento. Em todas essas situações, existe algo em comum: a experiência de uma perda que, muitas vezes, não encontra espaço para ser nomeada e acolhida.
Durante os estudos para aperfeiçoar os meus conhecimentos na área da psicologia perinatal, me deparei com a reflexão de que não existe em nossa sociedade um nome para quem perde um filho. Filhos que perdem seus pais, são chamados de órfãos, esposas que perdem seus maridos são chamadas de viúvas e qual o nome que damos quando um pai ou uma mãe perde o seu filho? Não existe um nome para essa perda, não é o processo natural esperado por todos nós, afinal esse ser teria ainda uma vida longa pela frente.
Em muitos casos, quem vive o luto perinatal se depara com frases que, embora possam ter a intenção de confortar, acabam minimizando a dor: “você é jovem”, “logo você engravida novamente”, “foi melhor assim”, “acontece”. Essas falas podem transmitir a mensagem de que esse luto deveria ser breve, menos intenso, como se existisse um prazo silencioso para que a mulher “siga em frente”.
Mas o luto não tem um tempo determinado. Cada pessoa elabora a perda de forma única, e não há uma duração considerada “correta”. Para algumas mulheres, a dor pode permanecer mais intensa por semanas ou meses. Para outras, ela pode reaparecer em datas significativas, em novas tentativas de gravidez, ao ver outras gestantes ou ao lembrar dos planos que foram interrompidos. Isso não significa que algo esteja errado, mas que o vínculo existiu e deixou marcas emocionais. Em meus atendimentos busco acolher e validar a dor emocional, e psicoeducar minhas pacientes de que o luto não é algo a ser superado, aprendemos a conviver com ele, a dor da perda é uma parte nossa e que sempre estará ali com a gente.
Hoje quero trazer essa reflexão de que o luto perinatal muitas vezes é vivido em silêncio. Algumas mulheres relatam dificuldade em falar sobre a perda, seja por medo de julgamentos, por sentir que as pessoas não compreendem ou por perceber que o assunto se torna desconfortável para quem está ao redor. Com o tempo, pode surgir a sensação de que não há mais espaço para expressar a dor, como se fosse necessário “voltar ao normal”, mesmo quando o emocional ainda está em processo de elaboração.
Validar esse luto é um passo importante. Reconhecer que houve uma perda, que existiam expectativas e que sentimentos como tristeza, culpa ou até mesmo raiva podem surgir e faz parte do processo. Não é necessário apressar a dor nem compará-la com outras experiências. Cada história é única e merece ser acolhida com respeito.
O luto perinatal também pode impactar o casal e a família. Parceiros podem viver a perda de forma diferente, e nem sempre conseguem expressar seus sentimentos com a mesma intensidade. Isso pode gerar distanciamento ou dificuldades de comunicação, reforçando a importância de um espaço de escuta e diálogo.
Nesse contexto, o acompanhamento psicológico pode ser um apoio importante. A psicoterapia oferece um espaço seguro para que se possa falar sobre a perda, nomear sentimentos, elaborar a experiência e reconstruir, aos poucos, novos significados. Não se trata de “esquecer”, mas de integrar essa vivência à própria história de forma cuidadosa. Acolher essa dor, sem pressa e sem julgamentos, é reconhecer que, mesmo quando a maternidade não chega ao colo, ela pode ter existido no desejo, no vínculo e na esperança.
Dar espaço para falar sobre essas perdas é também uma forma de cuidado. Porque quando o luto é reconhecido, ele deixa de ser vivido em silêncio e passa a ser acompanhado com mais acolhimento e compreensão.
Jéssica Samanta Monteiro Miranda Lima é Psicóloga Perinatal, com atuação voltada à saúde mental da mulher. Acompanha mulheres em diferentes fases da vida, desde a jornada da fertilidade até os desafios emocionais da gestação, parto e pós-parto, busca por uma maternidade mais leve oferecendo escuta sensível e embasamento técnico e científico.
Formação acadêmica
Bacharel em Psicologia – Universidade do Grande ABC
MBA em Gestão estratégica do Capital Humano – FMU
Pós-graduação Psicopedagogia – Universidade Metodista
Pós-graduação Aperfeiçoamento em Psicologia Perinatal e da Parentalidade – Instituto MaterOnline



