Por André Henrique
O Brasil é um dos maiores produtores de alimentos do mundo, e para atender a essa demanda, práticas de manejo da terra são constantemente utilizadas, muitas são tradicionais, outras muito polêmicas. Entre elas está o “correntão”, um método que chama a atenção tanto pela “eficiência” em limpar áreas quanto pelos severos impactos ambientais que pode gerar.
O que é o correntão?
O correntão é uma técnica de desmatamento ou limpeza de áreas rurais que consiste em prender uma enorme corrente de aço entre dois tratores ou tratores de esteira. Ao se movimentarem lado a lado, as máquinas arrastam a corrente pelo terreno, derrubando tudo o que estiver à frente: árvores, arbustos e até mesmo raízes de grande porte.
O objetivo principal do correntão é abrir espaço de forma mais rápida, e com menos custos para atividades agrícolas, como plantio de grãos, ou para formar áreas de pastoreio extensivo. É considerado um método eficiente, pois em pouco tempo consegue transformar centenas de hectares de vegetação nativa em áreas “limpas” para uso econômico.
Por que é usado na agricultura?
A prática se tornou comum em regiões de fronteira agrícola, como no Cerrado e na Amazônia, onde o avanço da produção de soja, milho e pecuária demanda grandes extensões de terra. Os principais fatores que levam ao uso do correntão são:
Rapidez: um par de tratores com corrente pode derrubar em poucas horas o que levaria dias ou semanas em métodos manuais.
Custo reduzido: em comparação com desmatamento manual ou técnicas seletivas, o correntão tem menor custo operacional.
Padronização da área: deixa o terreno aparentemente pronto para o uso agrícola ou pecuário, sem a necessidade de limpeza detalhada.
Para produtores que precisam expandir rapidamente suas áreas, o correntão é visto como uma ferramenta prática e eficiente.
Consequências ambientais do uso
Apesar da eficiência, o correntão é alvo de graves críticas ambientais. A derrubada da vegetação de forma indiscriminada causa:
Perda da biodiversidade: árvores centenárias, vegetação secundária e fauna associada são destruídas sem chance de regeneração imediata.
Compactação do solo: o peso das máquinas e a passagem da corrente podem comprometer a estrutura do solo, reduzindo sua fertilidade.
Emissão de carbono: o desmatamento em larga escala libera grandes quantidades de gases de efeito estufa.
Desequilíbrio hidrológico: a remoção da vegetação aumenta a erosão e reduz a infiltração de água, afetando rios e nascentes.
Morte de animais: a remoção por compactação, toda a fauna no local é morta sem a oportunidade de fuga, pois ela é arrastada, compactada e depois incinerada.
Por essas razões, o uso do correntão é frequentemente associado ao desmatamento ilegal, já que em muitas regiões a legislação ambiental proíbe ou restringe essa prática.
Alternativas ao correntão
Com o aumento da consciência ambiental e a pressão por cadeias produtivas mais sustentáveis, surgem alternativas ao uso do correntão:
Manejo florestal sustentável, que permite retirar madeira sem eliminar toda a cobertura vegetal.
Integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), que promove equilíbrio entre produção e preservação.
Tecnologias de agricultura de precisão, que identificam áreas produtivas sem necessidade de devastação em massa.
Essas práticas podem reduzir impactos ambientais e atender às exigências de mercados internacionais que cada vez mais rejeitam produtos oriundos de áreas desmatadas de forma ilegal ou predatória.
Conclusão
O correntão é um símbolo das contradições do agronegócio brasileiro: de um lado, uma técnica que atende à necessidade de expansão rápida; de outro, uma prática que carrega graves impactos ambientais e sociais. O desafio atual não é apenas produzir mais, mas produzir com responsabilidade, conciliando produtividade com conservação ambiental.
O debate sobre o correntão, portanto, não é apenas técnico é também político e ético. Ele nos convida a refletir sobre o modelo de desenvolvimento que queremos: um modelo baseado no uso predatório da terra ou um modelo que valorize a sustentabilidade como caminho para o futuro.
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André Henrique de Rezende Almeida
@BIOLOGOANDREHENRIQUE
Biólogo CRBIO 02: 60.945
Engenheiro Ambiental CREA: ES-055476/D



