Por Carla Perin
Um olhar entre ciência, sensibilidade e a presença silenciosa dos animais
“Há percepções que não passam pela razão — apenas pelo sentir.”
Em um hospital de cuidados prolongados, um pequeno gato chamou a atenção da equipe de saúde por um comportamento incomum. Ele caminhava silenciosamente pelos corredores, observava os pacientes e, em determinados momentos, escolhia permanecer ao lado de alguns deles. Até que algo começou a ser percebido
Os pacientes que recebiam sua companhia constante, muitas vezes, estavam nas últimas horas de vida.
O nome desse gato era Oscar (therapy cat). Sua história ganhou o mundo não por mistério, mas por algo ainda mais profundo: a sua presença.
Os animais vivem em um estado de presença que o ser humano, muitas vezes, perdeu. Eles não estão presos ao passado nem antecipando o futuro. Eles estão no agora.
E é nesse estado de presença que algo acontece.
Enquanto os humanos tentam entender, explicar ou evitar o tema da morte, os animais apenas permanecem. Sem medo. Sem resistência. Sem necessidade de controle.
Oscar não “anunciava” a morte.
Ele acompanhava a vida até o fim.
Um olhar sistêmico sobre a morte
Na visão sistêmica inspirada no trabalho de Bert Hellinger, a morte não é vista como falha ou ruptura, mas como parte de uma ordem maior da vida.
Todos pertencem, todos têm um lugar. E todos, em algum momento, seguem seu caminho.
O que muitas vezes gera sofrimento não é a morte em si, mas a forma como nos relacionamos com ela — com medo, negação ou tentativa de controle.
Os animais não resistem à ordem da vida. Eles não tentam evitar o inevitável.
Eles acompanham.
A presença de um animal ao lado de alguém em seus últimos momentos pode ter um significado profundo.
O que isso nos revela
Estamos presentes? Ou estamos sempre tentando antecipar, controlar e evitar?
Os animais nos mostram que existe uma outra forma de estar no mundo.
Uma forma mais simples, mais direta, mais conectada com o fluxo natural da vida.
Histórias como a de Oscar nos convidam a refletir sobre nossa própria forma de viver.
Entre o mistério e a verdade
Talvez nunca possamos explicar completamente como ou por que alguns animais percebem esses momentos.
Mas talvez essa não seja a pergunta mais importante.
A pergunta mais importante pode ser:
o que podemos aprender com isso?
Podemos aprender a permanecer. A respeitar os ciclos da vida.
A reconhecer que nem tudo precisa ser controlado. E, principalmente, que há momentos em que a maior forma de cuidado não é agir —
é estar.
Quando a vida pede silêncio
O gatinho do hospital não fazia barulho.
Não chamava atenção.
Não explicava o que estava acontecendo.
Ele apenas chegava… e ficava.
E talvez seja isso que mais nos toca.
Porque, no fundo, todos sabemos:
há momentos em que nenhuma palavra é suficiente.
E é nesse espaço que a presença se torna cuidado.
Carla Perin
Médica Veterinária Sistêmica
Terapeuta Multiespécie
Um olhar sistêmico sobre o vínculo entre humanos e animais.
@cacaperin



