* Por poetisa Thaisy Moraes
Instagram: @thaisymoraespoetisa
Um dia, a alma se apaixonou pela consciência. Escrevia cartas de amor semanalmente, na esperança de ser notada. Pobre alma! A consciência não falava a sua língua. Eram códigos secretos, todos aqueles símbolos e alfabetos. Era tempo desperdiçado, a tentativa de ser ouvida. Tentou, por muito tempo, outro tipo de artimanha. Buscava surpreendê-la com momentos inesquecíveis. Tentava satisfazê-la a partir das informações que coletou sobre a sua vida, a sua batalha cotidiana e a sua infância difícil e negligenciada. Afinal de contas, quem ama de verdade, se interessa, não é mesmo? Coitadinha daquela alma! A consciência era desligada. Ela não notava nem evidências e, muito menos, simbolismos. Mesmo assim, a alma continuou a sua saga de amor presente.
Dia após dia, anos sequenciados, lá estava aquela alma enamorada com aquele mesmo olhar doce, bondoso e esperançoso voltando-se consistentemente em direção àquela consciência perdida no espaço e no tempo, desligada do mundo e do seu próprio valor. Uma alma jamais desiste, não é verdade? Porque a alma sabe ser consistente, já experimentou lugares e mundos diferentes. Ela vem à existência neste plano com bagagem, com propósito. Desistir nunca será suficiente para uma alma. Jamais suprirá os seus anseios. A alma tem sede de presença e fome de vivência.
Em um lindo dia de outono, porque é a estação que celebra as mudanças, a consciência acordou diferente. Ela olhou para dentro e conseguiu decodificar um bilhete singelo da alma. Buscou nas memórias de infância, algumas tão fortes e duras, outras tão belas e felizes, entender o que sentia no fundo, bem ao fundo de tudo aquilo que já viveu e passou. E foi assim, naquele dia de folhas caídas ao chão e pensamentos confusos e intensos, que a consciência se apaixonou pela alma. Convidou-a para jantar. Não se contendo de tanta alegria, a alma arrumou-se com a sua melhor roupa, usou o seu perfume mais caro, levou um vinho de nobre valor. Porque, para a alma, havia muito a se comemorar.
Dizem que aquele encontro entre a alma e a consciência foi um marco de encarnação. Despiram-se. Completaram-se. Foram um. Desde então, amaram-se, casaram-se e, ouvi falar, nunca mais houve conflitos de interesses internos. Ou, se houve, não deu tempo de documentar.
* Thaisy Moraes é servidora pública municipal responsável pelo setor de Patrimônio do Município de São Carlos/SC, biomédica formada pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), escritora e poetisa há treze anos: “Escrevo há treze anos sobre tristezas e alegrias, e belezas e feiuras, tão presentes em nossa condição humana.”



