Por Téo Gelson
Dos 30 aos 40 anos, Zélia Duncan passou de cantora desconhecida de timbre grave a uma das mais aclamadas, doces e espirituosas representantes da cultura brasileira. Em 1997, prestes a completar 33, ela celebrava o Disco de Ouro pelas primeiras 100 mil cópias vendidas do álbum Intimidade (Warner Music, 1996) quando subiu ao palco do Sesc Pompeia, em São Paulo, para um show do projeto Ouvindo Estrelas. Nele, a cantautora teve a oportunidade de mostrar que já eram consolidadas e potentes as suas diversas vozes: a que canta (grave), a que compõe (doce) e a que fala (espirituosa). Isso está claro no registro que, em 2023, o Selo Sesc, através do projeto Relicário, transforma em mais um trabalho ao vivo da artista. Intitulado Relicário: Zélia Duncan (Ao Vivo no Sesc 1997) (Selo Sesc, 2023), o álbum reúne canções de dois dos discos lançados por Zélia Duncan até ali.
Em 1997, eu era apenas uma adolescente roqueira de 16 para 17 anos que amava Beatles, Rolling Stones, Bob Dylan e The Byrds e recém havia descoberto a MPB. Aos 12, um disco de Caetano Veloso me apresentara à Tropicália, a seus expoentes e à sonoridade que tinha muito do rock que eu escutava em casa através de meu pai e de meu irmão. Rita Lee logo foi eleita a tropicalista com a qual mais identifiquei características comuns. Às vésperas de completar 14, um disco novo de Marisa Monte me levou a outros universos, como o do samba, e me permitiu resgatar em mim referências que saíam da vitrola e do piano de minha avó.
A voz grave de Zélia Duncan, que eu já conhecia de uma trilha sonora de novela, entrou na minha casa quando eu estava prestes a completar 16 anos, em um CD trazido pelo meu pai e autografado por ela para nós dois. Com sua clara influência do folk e do rock, Intimidade arrebatou a família toda com um som que continha algo dos Beatles e/ou algo dos Byrds. Ali, eu já sabia que éramos conterrâneas, ambas nascidas em Niterói, e passei a seguir “ZD” – apelido dado por seus fã-clubes – e a comprar os discos de antes, os que vieram depois, a ir aos shows e, quando virei jornalista, a buscar motivos para fazer boas entrevistas com ela.
Em 1997, eu ainda não tinha liberdade para ir sozinha a um show fora de minha cidade, e sabe-se lá por que meu pai foi naquele de Niterói sem mim. A São Paulo que tanto frequento hoje era um destino distante naquela época. Os tempos eram outros e não existiam telefones celulares registrando tudo da plateia, muito menos plataformas de vídeos oferecendo trechos ou espetáculos inteiros. Portanto, o show realizado em 15 de julho no Sesc Pompeia foi um dos tantos de Zélia que perdi, mas que agora – pelo menos em forma de áudio – posso ouvir.
Segundo matérias publicadas pelos jornais paulistanos que divulgaram o show de Zélia Duncan no Sesc Pompeia, o carro-chefe era Intimidade, mas o setlist ficou bem equilibrado entre esse e o outro trabalho autoral da artista, Zélia Duncan (Warner Music, 1994). Divertido e em tom confessional, um bate-papo íntimo com o saudoso Zuza Homem de Mello, o curador do projeto Ouvindo Estrelas, é a primeira faixa do novo disco que vem à luz depois de 26 anos e prova que a cantora já era uma ótima entrevistada muito antes de 2001, quando lançou Sortimento (Universal Music, 2001) e eu, ainda estagiária, pude comandar a primeira de muitas entrevistas que fiz com ela.
Nessa época, eu já amava Acesso (Warner Music, 1998) e já vinha atravessando a ponte Rio-Niterói em busca de bons shows, mas ainda não havia começado a escrever profissionalmente e vivia intensamente minha fase tiete. Dessa turnê, eu não tenho uma foto com Zélia, porque, apesar de tirada no camarim de uma casa de shows no Rio, nunca me foi entregue pela fotógrafa. E o CD Acesso que tenho até hoje tem o encarte autografado apenas para meu pai, porque ele acabou indo ao show de Zélia Duncan em nossa cidade antes de mim. Sei lá por quê.
Certeza do ser
Durante a conversa com Zuza que se ouve na abertura de Relicário: Zélia Duncan (Ao Vivo no Sesc 1997), Zélia deu a entender que sempre teve muito definido o que já era e continuaria sendo a sua jornada na música: “Minha música tem elementos de folk, de blues, de funk, de soul… O que eu digo é muito importante no meu trabalho!”, declarou ela nesse papo inicial que sempre abria as edições do projeto. A mistura de sons, ritmos, gêneros e referências já servia como pano de fundo para o que a partir de seu segundo álbum, o primeiro levando Zélia Duncan como assinatura, faz a maior diferença em seu trabalho: a composição.
Se em seu disco de estreia, Outra Luz (Eldorado, 1990), Zélia Cristina – como assinava – incluiu apenas uma canção de sua autoria no repertório, a partir de 1994, com Zélia Duncan, o que ela escreve e “diz” ao microfone passou de fato a ser “muito importante”. Não à toa, saiu desse segundo álbum, e com versos de Zélia e Christiaan Oyeens, o primeiro hit de sua carreira, “Catedral”, que foi parar na trilha sonora da novela “A Próxima Vítima”, em 1995.
A faixa arrebatou o Brasil todo, e eu cheguei a aprender os acordes para tocá-la nas rodas de violão com amigos. Mas, como eu nunca fui pautada por hits, não foi ela que me levou a procurar saber mais sobre Zélia Duncan. Eu gostei mesmo quando conheci aquele som que tinha algo de Byrds e que acabou virando hit: “Enquanto Durmo” (Duncan e Oyens) foi incluída na trilha de “Salsa e Merengue”, em 1997. Em uma entrevista realizada por mim em 2009 para uma revista e que acabou não sendo publicada, Zélia confessou que Intimidade foi um desafio que serviu para fidelizar seus fãs, entre eles eu. Disse ela:
“Acho que o disco Intimidade tem uma importância enorme para mim. Foi um momento crucial, talvez a primeira coragem, pois não repeti ‘Catedral’, que era do anterior e era a música mais pedida até em rádios de dance music. O sucesso é gostoso, sedutor, ardiloso, tentador! Mas eu tentei seguir adiante. Mais ingênua do que hoje, achava que por ter sido ouvida antes, seria depois, mas não é bem assim, não. As pessoas quase que exigem a repetição! Mas foi uma confirmação da parceria com Christiaan e Lucina e uma afirmação como autora. Perdi a fatia de público que ama mais o sucesso do que o artista, mas ganhei a confiança dos que me ouvem até hoje.”
Apesar de já atuar como compositora, Zélia Duncan estourou com uma versão. O caminho natural seria o dos hits, mas algo que sempre pautou a carreira de Zélia foi a honestidade consigo mesma: “Eu disse muitos ‘nãos’ depois de ‘Catedral’, desde fazer versão de música italiana com vaga certa em novela das oito, até gravar um disco inteiro em Los Angeles, com músicos feras americanos. Eu preferi tentar descobrir quem eu era. E, sim, as escolhas sempre foram minhas e eu arco com as consequências disso. O caminho é mais solitário por um lado e mais recompensador por outro, creio eu”, disse Zélia na mesma entrevista.
Compor não foi uma decisão tão simples quanto cantar. Zélia costuma creditar a segurança que foi conquistando a “cúmplices” como Christiaan Oyens e Lucina. No palco, sempre foi bem acompanhada por músicos de peso. Na mesma entrevista que trago à luz agora, ela também expôs, em tom confessional: “Com o tempo, fui me impondo coragens… isso foi importante, pois não sabia exatamente onde pisava… só sabia que podia perder o que tinha de espaço. Mas meu medo de embotar sempre foi maior do que o medo de arriscar”.
Arriscando-se e sem medo da solidão, em Intimidade, seu terceiro trabalho, Zélia viu nascerem outros sucessos – “Intimidade”, “Bom pra você”, entre outras – e a cantora e compositora se estabeleceu de vez entre as grandes vozes da MPB, sem ser uma porta-voz só de ritmos brasileiros. “Quando eu comecei como Zélia Duncan, quem me conhecia há mais tempo falava: ‘Você tem uma voz assim, devia cantar mais MPB’. Eu tô cantando o que eu gosto, quero dizer pela minha boca as coisas. Foi assim que eu arranjei cúmplices, falando o que eu queria falar”, declarou ela a Zuza no palco do Sesc Pompeia em 1997.
Trajetória
Zélia Cristina Gonçalves Moreira nasceu em Niterói, em 28 de outubro de 1964, e galgou diversas fases até chegar ao ponto de encher uma casa de shows com tantos fãs repetindo os versos de suas músicas. Criada em Brasília, quando pequena, ouvia a mãe soltando a voz em casa para cantar Elizeth Cardoso. A memória a fez cantar em shows por muitos anos de sua carreira “Doce de Coco”, um choro de Jacob do Bandolim que recebeu letra do Hermínio Bello de Carvalho, conforme relembrou Zuza no bate-papo com Zélia. Sozinha, apaixonou-se por Elis Regina. Com os irmãos, pirou no peso do Led Zeppelin e do Pink Floyd. Até que alcançou os timbres de Joni Mitchell, Ella Fitzgerald e tantos outros que fizeram sua cabeça.
Zélia Cristina cantou na noite por muitos anos. Depois, migrou para os palcos como atriz, participando até de musical dirigido por Oswaldo Montenegro. Aos 22 anos, voltou para Niterói, onde foi morar com a verdadeira Zélia Duncan, a avó de quem pegou – com autorização – o nome artístico: ela mudou de nome para ter Duncan em seus registros. A uma certa altura, já depois do lançamento de seu disco de estreia, aceitou um convite para cantar em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, e passou oito meses fora do Brasil, experiência que mudou sua forma de cantar: “Fui para lá como apenas mais uma cantora brasileira, mas eu consegui personalizar aquilo e saí de lá como Zélia”, contou a Zuza.
E personalizou para valer. Basta dizer que o deserto árabe a inspirou durante a escrita da versão da letra de “Cathedral Song” (Tanita Tikaram). No entanto, não foi de primeira que Zélia conseguiu mostrar o seu talento como compositora. Como Zélia Cristina, gravou um disco em que só a faixa “Outra Luz” era assinada por ela e Oyens: “Eu acho que a coisa mais importante pra mim, até hoje, é ser cantora, interpretar, dizer as palavras, sejam elas minhas ou não”, declarou a Zuza logo no início da conversa, antes de se soltar e assumir que seu texto é, sim, um diferencial em sua música.
Fonte: https://www.sescsp.org.br/



