Por Karen Goldberg
Você já reparou como certos espaços dentro da cidade parecem projetados pra te expulsar, e não pra te acolher?
Bancos com divisórias no meio. Bicos de concreto, espetos ou grades em áreas onde alguém poderia se sentar ou deitar. Tudo isso não é acaso. É projeto (infelizmente). É o que se chama de arquitetura hostil — o tipo de urbanismo que, em vez de resolver desigualdades, as empurra pra longe da vista.
Foi observando isso que a artista Sarah Ross criou os Archisuits. Com formas absurdas, as quatro peças de vestuário posuem suportes que se encaixam perfeitamente no espaço negativo de bancos, cercas e fachadas de edifícios.
As espumas macias e flexíveis das roupas contrastam com a arquitetura fria e rígida, em uma crítica direta:
Se a cidade não me quer aqui, então meu corpo vai ocupar esse espaço, nem que seja por excesso.
Mas nem toda arquitetura cala. Algumas gritam possibilidades.
Como o projeto da High Line, em Nova York.
Uma antiga linha de trem elevada e abandonada, que poderia ter virado ruína, mas virou parque.
Virou passeio, lazer, descanso.
Gente caminhando, artistas expondo, crianças brincando.
Um lugar que convida, em vez de repelir.
O espaço é o mesmo.
A diferença está no olhar de quem projeta e na intenção por trás da forma.
E mesmo dentro de projetos mais intimistas, essa intenção pode estar presente.
Como no Hudson Hotel, também em NY, projetado por Philippe Starck:
Você entra por um túnel escuro, estreito… e de repente, tudo se abre num átrio imenso, cheio de luz.
É arquitetura como narrativa.
Um convite sensorial à transformação.
Porque o espaço fala. Mesmo quando está em silêncio.
A questão é: o que ele está dizendo?
E principalmente: pra quem ele está falando?
Na hora de projetar um espaço — seja uma casa, um quarto ou uma cidade — sempre me pergunto: isso acolhe ou expulsa?
Porque, na minha visão, forma e função devem andar juntas.
Até a próxima.
Arq. Karen Goldberg
@kaparquitetura
Karen Goldberg é arquiteta e urbanista formada pela PUC-Rio desde 2009. À frente da Kapa Arquitetura, seu trabalho é ajudar pessoas a viverem em espaços com significado — unindo estética, identidade e propósito em cada projeto.



