Por Valquíria Gomes da Silva
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Nos últimos dias, uma fala da cantora Shakira voltou a gerar debates nas redes sociais ao abordar a realidade enfrentada por mulheres que criam seus filhos sozinhas. E embora a fala tenha surgido em outro contexto cultural, ela conversa diretamente com uma realidade brasileira alarmante: o crescimento exponencial do número de mães solo no país.
Segundo dados do IBGE, milhões de mulheres brasileiras sustentam seus lares sozinhas, acumulando funções de mãe, pai, cuidadora, provedora e responsável emocional pelos filhos. Muitas dessas mulheres ainda enfrentam abandono afetivo, inadimplência de pensão alimentícia, violência doméstica e relacionamentos marcados por controle psicológico e financeiro. Não raramente, elas nos procuram completamente esgotadas, acreditando que perderam sua identidade no meio da sobrevivência diária.
A maternidade solo no Brasil não é romantizada na prática. Mas, ela é pesada. É acordar cedo, trabalhar, cuidar dos filhos, administrar despesas, lidar com a culpa constante e, muitas vezes, ainda enfrentar processos judiciais desgastantes para garantir direitos básicos dos filhos.
Como advogada de família, atuando, especialmente, nos direitos da mulher após o divórcio e na defesa de mulheres vítimas de violência doméstica, vejo de perto como muitas mães solo chegam fragilizadas após anos de relacionamentos abusivos. Em inúmeros casos, a dependência financeira foi utilizada como instrumento de controle pelo marido ou companheiro. Algumas deixaram profissão, estudos e sonhos para cuidar da casa e dos filhos, acreditando que construíam uma família segura e, quando a relação termina, precisam recomeçar praticamente do zero.
É justamente nesse ponto que o Direito de Família deixa de ser apenas um conjunto de leis e passa a exercer função social extremamente importante. A pensão alimentícia, por exemplo, não é “ajuda” à ex-companheira e aos filhos. Trata-se de obrigação legal e dever parental. Da mesma forma, o reconhecimento da violência psicológica e patrimonial pela Lei Maria da Penha foi um avanço importantíssimo na proteção de mulheres que sofrem agressões que nem sempre deixam marcas físicas, mas causam danos profundos e muitas irreversíveis.
Sendo importante reconhecer que muitas mulheres não conseguem ingressar imediatamente no mercado de trabalho após a separação, especialmente, quando possuem filhos pequenos ou com necessidades especiais. Por esse motivo, diversas vezes, os juízes reconhecem o direito aos alimentos transitórios para possibilitar que essa mulher reorganize sua vida com dignidade.
Mas, existe uma reflexão humana necessária, além da discussão jurídica: mães solo não precisam de pena. Precisam de apoio, respeito e acesso à justiça. Precisam parar de ser vistas como “coitadinhas” por um relacionamento que acabou. Recomeçar exige coragem. E essa é uma das maiores forças femininas. A capacidade de reconstruir a própria vida mesmo depois de ter passado por dor, abandono ou violência.
A fala de Shakira repercutiu porque muitas mulheres se enxergaram nela. Não pela fama, mas pela exaustão emocional que tantas carregam silenciosamente. E talvez esteja na hora da sociedade parar de exigir que mães solo sejam heroínas o tempo todo. Nenhuma mulher deveria precisar adoecer para provar que está fazendo o possível pelos filhos.
Que cada vez mais mulheres entendam que pedir ajuda não é fraqueza. Buscar seus direitos não é vingança. E recomeçar não é o fim da história — muitas vezes, é justamente o começo de uma vida mais segura, digna e livre.



