*Por Poetisa Thaisy Moraes
Instagram: @thaisymoraespoetisa
Acho difícil que exista um adulto no mundo que não tenha tido acesso à história dos três porquinhos ou aos seus ensinamentos. Durante séculos, a fábula alucinante que expõe o contraste entre a preguiça e o esforço foi contada, sutilmente, para crianças de forma lúdica e divertida. Mas, não! Ela nunca falou de porcos, nem sobre lobos serem maus. As histórias sobrevivem ao tempo quando permanecem vivas dentro de nós. E quando isto acontece, acredite: muito provavelmente, elas necessitam ser contadas novamente!
A verdade não dita – mas com certeza, percebida inconscientemente – é que a bela fábula inglesa, nascida da tradição oral europeia possivelmente na Idade Média, continua viva porque remete a medos humanos universais. O tal vento que derruba as casas e leva os pertences não é somente vento. É crise. É perda. É desesperança. É doença. É abandono. É a própria vida testando os seus alicerces. É aquele instante inevitável e sorrateiro, em que tudo parece tranquilo demais até que, sem aviso, a vida decide testar aquilo que construímos. Os contos, embora fantasiados de confetes, não preparam as crianças para um mundo ideal. Eles preparam seres humanos para o mundo real.
Durante muito tempo, ouvimos e contamos apenas uma versão da história. E o coitado do lobo sempre teve a sua imagem relacionada ao vilão destruidor e maldoso. Uma grande sacada surgiu com certas releituras modernas, como é o caso do livro “A Verdadeira História dos Três Porquinhos”, de Jon Scieszka, publicado originalmente em 1989. Nele, decidiram dar ao lobo o direito à ampla defesa, já que durante séculos – que me desculpem os juristas – ele só teve acesso a uma parte do contraditório. O pobre diabo passou anos a fio sufocado pela verdade absoluta. Finalmente, ele pôde contar a sua versão e, pela primeira vez neste conto, o leitor percebeu que a verdade tem, sim, as suas preferências e, às vezes, pode depender de quem conta a história.
Não me leve a mal se o que eu disser soar pretencioso, mas acredito que o maior mérito dessas releituras seja dialogar com as próprias lendas: elas também humanizam a narrativa. O objetivo de dar voz ao lobo talvez não seja inocentá-lo, mas revelar a sua humanidade. Afinal, seres humanos têm atitudes lupinas o tempo todo: justificam os seus erros, suavizam suas crueldades, distorcem intenções, contam versões convenientes de si mesmos. O lobo personifica os impulsos profundamente humanos – a fome, o ego, a manipulação, o desejo de sobreviver a qualquer custo, a necessidade de se sobressair ao outro, a sagacidade, a dissimulação, a inveja, a vontade de sair ileso, de não ser pego, a necessidade desesperada de parecer inocente diante dos demais. No fundo, ninguém deseja ser a mancha, a pedra de engano que foi destapada ou o centro das conversas maldosas da cozinha da firma. Mas isto não é infraestrutura básica de construção. Está mais para acabamento de outra reflexão que ainda está sendo erguida por dentro…
Ah! Lembra de passar por aqui na segunda que vem!
*Thaisy Moraes é servidora pública municipal responsável pelo setor de Patrimônio do Município de São Carlos/SC, biomédica formada pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), escritora e poetisa há treze anos: “Escrevo há treze anos sobre tristezas e alegrias, e belezas e feiuras, tão presentes em nossa condição humana.”
** Este material possui imagem ilustrativa feita por Inteligência Artificial.



