Quando mudanças no comportamento merecem atenção — e quando fazem parte do crescimento
Por Érika Ricci
Existe uma frase que aparece com muita frequência dentro do consultório e que quase sempre vem carregada de preocupação, culpa e muitas dúvidas:
“Meu filho mudou.”
Às vezes os pais não conseguem dizer exatamente o que aconteceu. Apenas sentem que alguma coisa já não parece igual. O filho que antes conversava mais agora responde pouco. A criança que parecia leve passou a se irritar com facilidade. O adolescente que participava das atividades da família começou a se isolar. E então surge aquela tentativa silenciosa de entender se aquilo é apenas uma fase do desenvolvimento ou se existe algo acontecendo emocionalmente.
Talvez uma das partes mais difíceis de educar um filho seja justamente perceber que crescer naturalmente envolve mudanças. Crianças e adolescentes não permanecem iguais ao longo do tempo. Elas amadurecem, constroem novas formas de pensar, buscam mais autonomia, passam a precisar de espaços próprios e começam a reorganizar a maneira como enxergam o mundo e a si mesmas.
Por isso, nem toda mudança merece preocupação.
Mas também nem toda mudança deve ser ignorada.
E encontrar esse equilíbrio tem se tornado cada vez mais desafiador para as famílias.
Durante muito tempo existiu uma ideia de que sofrimento emocional necessariamente apareceria através do choro ou de demonstrações muito evidentes. Hoje sabemos que nem sempre funciona assim. Muitas crianças continuam indo para a escola, continuam realizando atividades e continuam aparentando normalidade enquanto emocionalmente já estão enfrentando dificuldades importantes.
Algumas começam a demonstrar mais irritabilidade do que tristeza. Outras passam a se cobrar excessivamente. Algumas se isolam. Outras ficam mais dependentes emocionalmente dos pais. Existem crianças que se tornam extremamente perfeccionistas e adolescentes que parecem perder o interesse por tudo aquilo que antes fazia sentido.
E como essas mudanças nem sempre parecem sofrimento à primeira vista, muitos pais acabam interpretando como preguiça, falta de limite, excesso de sensibilidade ou rebeldia.
Mas sofrimento emocional raramente aparece com um aviso claro.
Na infância e na adolescência ele costuma aparecer através do comportamento.
Por isso, mais importante do que observar se o filho mudou é observar como essa mudança está acontecendo e qual impacto ela está trazendo para a vida dele.
Existe diferença entre um adolescente que busca privacidade e um adolescente que se desconecta completamente das relações.
Existe diferença entre uma criança mais introspectiva e uma criança que perdeu o prazer pelas coisas que gostava.
Existe diferença entre momentos de oscilação emocional e uma dificuldade persistente que começa a afetar escola, vínculos, autoestima e rotina.
Ao mesmo tempo, também precisamos tomar cuidado com um movimento que tem crescido muito: transformar qualquer dificuldade em diagnóstico.
Nem toda tristeza significa adoecimento.
Nem toda distração representa um transtorno.
Nem toda insegurança precisa receber um nome clínico.
Sentir desconforto, viver frustrações e enfrentar mudanças também faz parte do desenvolvimento humano.
Talvez o papel dos pais hoje não seja tentar impedir que os filhos mudem.
Talvez seja conseguir acompanhar essas mudanças sem minimizar sinais importantes e sem interpretar tudo como um problema.
Porque crescer costuma ampliar experiências.
Mas sofrer, muitas vezes, começa diminuindo.
Diminui a espontaneidade.
Diminui a vontade.
Diminui a presença.
Diminui a capacidade de sentir prazer e segurança.
E quando isso começa a acontecer, talvez não seja o momento de corrigir mais.
Talvez seja o momento de observar mais, escutar mais e permitir que o filho sinta que existe alguém disposto a compreender o que está acontecendo antes de oferecer respostas.
Porque nenhuma criança deveria precisar sofrer em silêncio para conseguir crescer.
Érika Ricci é psicóloga clínica com atuação em psicoterapia infantil, juvenil e orientação familiar. Diretora da clínica Jardim da Consciência e realiza acompanhamento psicológico com foco no desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes e apoio às famílias no processo educativo.
📷 Instagram: @erikaricci.psico



