Por: Clariana Grosso
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Existe uma mulher que nasce junto com o filho. Mas existe também uma outra mulher que, silenciosamente, parece desaparecer por um tempo. Entre mamadas, noites mal dormidas, preocupações constantes e a dedicação quase absoluta ao cuidado, muitas mães começam a se perguntar: “Onde fui parar nisso tudo?”
A maternidade nos transforma. Não apenas a rotina, o corpo ou as prioridades — ela mexe profundamente na identidade feminina. A mulher que existia antes continua ali, mas agora atravessada por novas responsabilidades, culpas, exigências e afetos. E talvez uma das experiências mais difíceis do pós-maternidade seja justamente o reencontro consigo mesma.
Vivemos em uma sociedade que romantiza o amor materno, mas pouco fala sobre o luto simbólico que muitas mulheres vivem ao perceberem que já não conseguem ocupar os mesmos lugares de antes. Algumas sentem culpa por desejarem tempo sozinhas. Outras se cobram por não se sentirem felizes o tempo inteiro. Há ainda aquelas que olham para o espelho e não reconhecem mais a própria imagem — física, emocional ou subjetiva.
Na psicanálise, o processo de tornar-se mãe pode ser entendido como uma reorganização psíquica profunda. Donald Winnicott falava sobre a “preocupação materna primária”, um estado em que a mulher naturalmente volta sua atenção quase integralmente ao bebê nos primeiros meses de vida. Isso é esperado e necessário. O problema surge quando, socialmente, espera-se que ela permaneça apenas nesse lugar, esquecendo-se de que continua sendo sujeito de desejos, sonhos e individualidade.
O reencontro consigo mesma após a maternidade não acontece de uma vez. Ele costuma vir em pequenos movimentos: no retorno a um hobby abandonado, em um café tomado em silêncio, em uma conversa que não gira apenas em torno dos filhos, em voltar a desejar algo para além do cuidar. E isso não significa amar menos os filhos. Significa lembrar que, antes de ser mãe, existe uma mulher inteira ali dentro.
Muitas mulheres carregam a culpa ao tentar se priorizar. Como se descansar, sair sozinha ou investir na própria carreira fossem atos egoístas. Mas uma mãe emocionalmente exausta não deixa de sentir amor — ela apenas perde contato consigo mesma. E ninguém consegue sustentar o cuidado sem também ser cuidada.
Talvez o maior desafio da maternidade moderna seja permitir que a mulher exista para além da função materna. Porque a maternidade não deveria exigir anulação. Uma mãe continua tendo direito ao próprio corpo, ao prazer, ao descanso, à ambição, à tristeza e ao desejo de se reencontrar.
O processo de voltar para si pode ser lento, às vezes doloroso, mas também profundamente libertador. Há beleza em perceber que a maternidade não precisa apagar quem a mulher era — ela pode, inclusive, ampliar sua potência.
Encontrar-se novamente depois da maternidade não é voltar a ser quem era antes. É descobrir quem se tornou depois de tudo.
Sou Clariana Grosso, mãe de uma menina de 6 anos, psicóloga clínica, com experiência há 19 anos. Atendo mulheres, mães em diversas fases da maternidade. Faço parte de uma Ong chamada Maio Furta Cor sobre Saúde mental materna. Se você se identifica e deseja adquirir o autoconhecimento, manda uma mensagem pelo whatsapp.




Verdade, não é sobre voltar a ser quem era … é descobrir como você é agora. Desafiador por muitas vezes.
Ótima matéria.
Saber que dá para voltar a viver e ter alegrias novamente sem se cobrar ou achar errado.