Por: Jakson Lopes
Jakson Lopes é assistente social, especialista em Serviço Social na Educação, idealizador do movimento social pela regulamentação e implementação da Lei nº 13.935/2019 em Cotia-SP e colunista de Serviço Social no portal Som de Papo. Atua na defesa da educação pública, dos direitos sociais e do fortalecimento das políticas públicas por meio da participação social e da gestão democrática.
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A expansão acelerada das Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação (TDICs) e da Inteligência Artificial (IA) tem transformado profundamente as formas de trabalho, comunicação e acesso a direitos. Nesse contexto, o Serviço Social é chamado a refletir criticamente sobre as potencialidades e os limites dessas ferramentas, incorporando-as de maneira ética, responsável e alinhada aos princípios da profissão.
A utilização da Inteligência Artificial exige transparência, proteção de dados, respeito à diversidade e compromisso com a dignidade humana. Mais do que utilizar recursos tecnológicos, é fundamental compreender seus impactos sociais, reconhecer possíveis vieses discriminatórios presentes nos sistemas automatizados e assegurar que as decisões que afetam a vida das pessoas permaneçam sob responsabilidade humana.
Essa perspectiva está diretamente relacionada ao conceito de cidadania digital, entendida como o exercício de direitos e deveres nos ambientes virtuais. Ser um cidadão digital implica utilizar a tecnologia de forma ética, segura e crítica, protegendo informações pessoais, preservando a saúde mental e desenvolvendo a capacidade de avaliar conteúdos e informações que circulam nas plataformas digitais.
Nesse cenário, o assistente social desempenha papel estratégico na promoção da cidadania digital e no enfrentamento das desigualdades de acesso às tecnologias. Sua atuação contribui para reduzir processos de exclusão digital, orientar usuários sobre segurança no ambiente virtual, promover a alfabetização digital e facilitar o acesso a direitos cada vez mais mediados por plataformas e sistemas eletrônicos. Essa intervenção torna-se ainda mais relevante na proteção de crianças, adolescentes, idosos e demais grupos vulnerabilizados diante de golpes, fraudes e violações de direitos no ambiente digital.
A inclusão digital, portanto, não pode ser compreendida apenas como acesso a equipamentos ou conexão à internet. Trata-se de uma condição indispensável para a inclusão social e para o pleno exercício da cidadania no século XXI. A ausência de competências digitais tende a ampliar desigualdades já existentes, restringindo o acesso da população a serviços, benefícios, informações e oportunidades.
Ao mesmo tempo, a incorporação da Inteligência Artificial ao Serviço Social apresenta importantes possibilidades de aprimoramento das práticas profissionais. Ferramentas de IA podem contribuir para a organização de informações, análise de dados, elaboração de documentos, correção textual e otimização de processos administrativos, permitindo maior eficiência na gestão das demandas institucionais.
Entretanto, os avanços tecnológicos não eliminam os desafios éticos inerentes à profissão. Questões relacionadas à privacidade, ao sigilo profissional, à proteção de dados pessoais, à autonomia técnica e ao risco de reprodução de desigualdades estruturais exigem permanente vigilância crítica dos profissionais e das instituições.
Nesse sentido, é importante reconhecer que a Inteligência Artificial possui caráter complementar e não substitutivo. O exercício profissional do assistente social fundamenta-se em competências que ultrapassam a capacidade operacional das máquinas. A escuta qualificada, a análise crítica da realidade social, a mediação de conflitos, a construção de vínculos de confiança, a sensibilidade diante das expressões da questão social e o compromisso ético-político com os direitos humanos permanecem como dimensões essencialmente humanas da intervenção profissional.
Embora a tecnologia seja capaz de processar informações em grande escala e executar tarefas com rapidez, ela não vivencia contextos sociais, não interpreta subjetividades nem compreende integralmente as complexidades das relações humanas. Por essa razão, áreas como educação, saúde, assistência social e gestão de políticas públicas continuam demandando profissionais capazes de articular conhecimento técnico, reflexão crítica e sensibilidade social.
Diante desse cenário, o Serviço Social reafirma sua relevância em uma sociedade cada vez mais digitalizada. A crescente complexidade das desigualdades sociais, a ampliação das políticas públicas e a necessidade de garantir direitos em contextos mediados por tecnologias fortalecem a importância da profissão. A Inteligência Artificial pode ampliar a capacidade operacional dos profissionais, mas não substitui a formação acadêmica, o compromisso ético e a dimensão humana que constituem a essência do trabalho do assistente social.
Mais do que disputar espaço com a tecnologia, o desafio contemporâneo consiste em colocá-la a serviço da promoção da cidadania, da inclusão social e da defesa intransigente dos direitos humanos.



