Pelo Psicanalista Jackson Shella
@psicanalista_jackson_shella
Hoje eu queria te convidar a fazer um pequeno experimento comigo: falar de Dia dos Namorados sem falar só de casal perfeito, mesa de restaurante lotado e coraçãozinho vermelho. Falar de amor, sim. Mas também de um tipo de amor que a gente costuma esquecer: aquele que começa em casa, dentro da gente. É aí que entra a tal da autonomia afetiva.
Talvez você esteja em um relacionamento, esperando uma mensagem especial, um jantar, um gesto que prove que você é importante. Talvez você esteja solteiro, fingindo que não liga para a data, mas se pega comparando a própria vida com o feed alheio. Seja como for, tem um ponto comum: o quanto você coloca a sua paz, a sua alegria, nas mãos de outra pessoa.
Autonomia afetiva não é frieza, nem desapego radical. Não é aquela pose de “não preciso de ninguém” que, no fundo, esconde medo de se machucar. Autonomia afetiva é outra coisa: é gostar de estar com alguém sem deixar de estar com você. É poder amar sem se abandonar. É conseguir dizer “eu quero você” sem que isso se transforme em “eu não existo sem você”.
Repara como a gente foi educado, direta ou indiretamente, a acreditar que um dia alguém viria “nos completar”. A frase é bonita, mas perigosa. Porque, se o outro completa, o que sobra quando ele vai embora? Metade de gente? Um pedaço de vida pela metade? A autonomia afetiva, ao contrário, parte de outro lugar: eu sou inteiro, você é inteiro, e a graça está em caminhar lado a lado, não grudado por necessidade, mas conectado por escolha.
Talvez você já tenha vivido algo assim: esperar a mensagem que não chega, aceitar menos do que você merece só para não “perder” a pessoa, engolir choro, engolir opinião, engolir a própria vontade, tudo com medo de ficar sozinho. A conta é simples e cruel: para manter o outro, a gente vai se perdendo da gente. Quando percebe, está vivendo um amor que até tem alguém, mas não tem mais você.
Autonomia afetiva é justamente começar a inverter essa equação. É conseguir se perguntar: “O que eu sinto?”, “O que eu quero?”, “O que me faz bem de verdade?” e levar essas respostas a sério. É parar de aceitar qualquer migalha em nome de um “amor” que, se você observar com carinho, machuca mais do que acolhe. É reconhecer que sentir falta de alguém é humano, mas se faltar a si mesmo é uma violência silenciosa.
Isso não significa, nem de longe, viver num relacionamento sem conflitos, como se você fosse um ser iluminado, resolvido, zen 24 horas por dia. Autonomia afetiva também cansa, também chora, também sente ciúmes, medo, insegurança. A diferença é que, em vez de jogar tudo isso no colo do outro e dizer “conserta aqui”, você começa a se responsabilizar pelo que sente. Você pode pedir ajuda, pode pedir abraço, pode pedir presença. Mas não entrega a chave da sua autoestima na mão de ninguém.
Um relacionamento saudável, em qualquer Dia dos Namorados, é aquele em que duas pessoas podem se escolher sem se possuir. Podem cuidar uma da outra sem se anular. Podem se apoiar sem se afundar juntas. Podem ter planos em comum, mas também ter vida própria, desejos próprios, momentos de solidão escolhida, que não são sinal de rejeição, mas de maturidade.
E se você estiver solteiro hoje, a autonomia afetiva talvez seja um dos maiores presentes que você pode se dar. Não como discurso de autoajuda barata, mas como prática concreta: se tratar com gentileza, respeitar seus limites, não se enfiar em qualquer história só para passar o Dia dos Namorados acompanhado. Tem solidão que é ferida, eu sei. Mas tem solidão que é útero: lugar de gestar uma versão mais honesta de si.
Às vezes, o verdadeiro “feliz Dia dos Namorados” começa quando você para de esperar que alguém venha te salvar da sua própria vida. E passa a se perguntar: “Que tipo de relação eu quero ter comigo, antes de querer qualquer relação com outra pessoa?”. Porque, no fim, a forma como você se trata cria o molde de como você permite que os outros te tratem.
Nesta coluna sobre autonomia afetiva, o meu convite é simples e, ao mesmo tempo, profundo: que você use esse Dia dos Namorados, esteja ou não em um relacionamento, como um espelho. Não para se julgar, mas para se ver com mais sinceridade. Em vez de só perguntar “quem me ama?”, experimentar perguntar “como eu tenho me amado?”. E, silenciosamente, ir reformulando o jeito como você se coloca no mundo.
Se o amor é encontro, que ele comece pelo encontro mais difícil e mais transformador: o encontro entre você e você mesmo. A partir daí, qualquer outro amor que chegar não vem para te completar, mas para caminhar ao seu lado — e isso, sim, é um presente à altura da sua história.
E você, como quer se encontrar com você hoje?
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Psicanalista vice presidente do Instituto Nacional de Psicanalise Clinica
Fundador da Ashells Psicanalise Clinica
Atuação com dependência emocional, terapia de casais e psicanalista organizacional



