Por Clariana Grosso
@psicologaclariana
Whatsapp: (11) 992245401
Com a aproximação do Dia dos Namorados, somos constantemente convidados a celebrar o amor. Tudo ao nosso redor, as vitrines, as redes sociais e as propagandas na tv, apresentam casais felizes, gestos grandiosos e relacionamentos aparentemente perfeitos. Diante desse cenário, torna-se importante refletir sobre uma distinção fundamental para o equilíbrio emocional: a diferença entre o amor ideal e o amor idealizado.
O amor ideal pode ser entendido como um desejo legítimo de construir uma relação baseada em respeito, cuidado, confiança e reciprocidade. Ele representa aquilo que esperamos encontrar e oferecer em um vínculo afetivo saudável. É um horizonte que orienta nossas escolhas, sem negar a realidade humana e suas imperfeições.
Já o amor idealizado nasce quando projetamos no outro expectativas irreais. Nessa perspectiva, o parceiro deixa de ser visto como uma pessoa singular, com qualidades e limitações, para ocupar o lugar de alguém que deveria corresponder integralmente aos nossos desejos, suprir nossas faltas e garantir nossa felicidade. Quando isso acontece, o relacionamento deixa de ser um encontro entre duas pessoas reais e passa a ser sustentado por uma fantasia.
A psicanálise oferece importantes contribuições para compreender esse fenômeno. Para Sigmund Freud, o processo de enamoramento frequentemente envolve idealizações. Em certa medida, é natural que, ao nos apaixonarmos, enxerguemos o outro de forma mais positiva. O problema surge quando essa idealização impede o reconhecimento da realidade. Quanto maior a distância entre a pessoa real e a imagem construída sobre ela, maior tende a ser a frustração.
Nas relações amorosas, criamos a expectativa comum de esperar que o outro compreenda nossos sentimentos sem que precisemos expressá-los, que esteja sempre disponível ou que nunca nos decepcione. Essas expectativas, embora muitas vezes inconscientes, podem gerar sofrimento. Afinal, nenhum ser humano consegue ocupar o lugar de perfeição que a fantasia exige.
O amor idealizado também encontra terreno fértil nas redes sociais. Ali, vemos recortes cuidadosamente selecionados da vida dos casais: viagens, comemorações, declarações e momentos felizes. Raramente aparecem os conflitos, as inseguranças, as divergências ou os dias difíceis que fazem parte de qualquer relacionamento. Ao comparar a própria experiência com essas imagens, muitas pessoas passam a acreditar que seu amor é insuficiente, defeituoso ou há algo de errado.
O amor ideal, por outro lado, não exige perfeição. Ele reconhece que amar implica lidar com diferenças, negociar expectativas, enfrentar frustrações e aceitar que o outro não existe para preencher todas as nossas necessidades emocionais. Trata-se de um amor que se constrói na realidade, e não na fantasia.
Talvez a maturidade afetiva consista justamente nessa passagem: abandonar a busca por um amor perfeito para investir em um amor possível. Um amor que acolhe a humanidade do outro, que suporta as imperfeições e que encontra beleza naquilo que é verdadeiro. Afinal, relacionamentos duradouros não são aqueles livres de falhas e dificuldades, mas aqueles em que duas pessoas estão dispostas a permanecerem conectadas apesar delas.
Neste Dia dos Namorados, vale a pena perguntar se: estou amando a pessoa que está diante de mim ou a imagem que construí dela? A resposta talvez revele que o amor mais profundo não nasce da idealização e da perfeição, mas da capacidade de enxergar, aceitar e escolher o outro em sua realidade.
Referências
Sigmund Freud. Sobre o Narcisismo (1914).
Donald Winnicott. Tudo Começa em Casa.
Jacques Lacan. Seminários sobre amor, desejo e falta.
Imagem criada com a ajuda da IA
Sou Clariana, esposa, mãe de uma menina de 6 anos e psicóloga clínica há 20 anos. Tenho experiência em atendimento de homens, mulheres e casais. Se você quiser se conhecer melhor ou compreender sua relação afetiva, entre em contato comigo.



