Por Ramon Henrique
Não vem com tapa na cara Vem com pergunta. Vem com silêncio.
Vem com aquele “mas você escolhe um lado, né?” dito como se fosse piada, enquanto você engole seco e finge que riu.
Ser bi no mundo hétero é ouvir que é fase. No mundo gay, é ouvir que é covardia. “Tá só com medo de assumir que é viado de verdade.”
“Tá tentando pegar homem e mulher porque não consegue ninguém.”
Ninguém pergunta se você ama gente, não gênero. Ninguém pergunta como é olhar pra alguém e pensar “quero essa pessoa”, e não “quero esse rótulo”.
Você vira ponte, e ponte ninguém mora. Ponte só se atravessa.
O pior é quando a própria comunidade faz. Você chega na roda LGBT, fala que é bi, e a conversa muda.
Algumas mulheres olham torto com medo de que você vá largar ela por um homem.
Alguns homens acham que você tá ali pra turismo sexual.
Os héteros continuam te fetichizando como se bissexualidade fosse convite e você no meio, sem lugar pra sentar, explicando pela milésima vez que não, não é confuso.
O confuso é o mundo que só entende linha reta.
Com pessoas trans o apagamento é mais brutal, vem em forma de formulário que só tem “masculino” e “feminino”.
BVem em forma de médico que pergunta “mas você já fez a cirurgia?” antes de saber seu nome. Vem em forma de gay que diz apoiar, mas não usa pronome certo porque “é difícil de acostumar”.
Vem em forma de lei que existe no papel e some na prática, quando a pessoa trans tenta emprego, escola, banheiro, vida.
Ser trans é ter que explicar o corpo o tempo todo pra família, pra amigo, pra estranho no ônibus que acha que tem direito de olhar.
É carregar a aula que ninguém pediu: “sou trans, não travesti, não é opção, não é doença, sim, meu nome é esse, não, você não precisa saber o que tem na minha calça”. Cansa. E quando cansa, a sociedade chama de “vitimismo”.
O apagamento bissexual e trans é isso: te empurrar pra margem da própria margem, te pedir pra caber num binário que não te cabe, te tratar como exceção quando você é gente.
Mudar não pede palestra. Pede parar de perguntar “qual dos dois você prefere?”. Pede usar pronome sem fazer teatro.
Pede entender que bissexual não é meio gay e meio hétero é inteiro que pessoa trans não é debate, é vida.
Enquanto isso não acontece, a gente continua aqui, Bi existindo sem precisar escolher lado.
Trans existindo sem precisar explicar corpo, sem pedir licença, só existindo, e existência, nesse caso, já é resposta.
Texto: Ramon Henrique
Instagram:@ramonhenriquee
Crédito Fotográfico: coletivo de gênero
Fonte: UOL/Terra/revista Veja/ANTRA – Associação Nacional de Travestis e Transexuais.



