Por Dra Thayse Santos
@dra.thaysesantos
@veridianaedicinapericial
Poucos temas geram tantas dúvidas quanto a perícia médica. Ao longo dos anos, diversos conceitos equivocados passaram a circular entre pacientes, trabalhadores e até mesmo profissionais que lidam frequentemente com processos envolvendo questões de saúde. Muitas dessas informações são repetidas tantas vezes que acabam sendo aceitas como verdade. Mas será que realmente correspondem à realidade? Vamos analisar alguns dos mitos mais comuns.
Mito: Se eu tenho uma doença, tenho direito automático ao benefício.
Essa talvez seja uma das crenças mais difundidas. A existência de uma doença não significa, por si só, que exista incapacidade para o trabalho ou para as atividades habituais. A perícia médica busca compreender não apenas o diagnóstico, mas também o impacto funcional daquela condição na vida da pessoa. Por isso, indivíduos com a mesma doença podem apresentar conclusões periciais diferentes, dependendo das limitações efetivamente observadas em cada caso.
Mito: Quanto mais exames eu apresentar, melhor.
Nem sempre. A qualidade da informação costuma ser mais importante do que a quantidade de documentos. Exames repetidos, desatualizados ou sem relação direta com a questão discutida nem sempre agregam valor à análise. O mais importante é que a documentação seja pertinente, organizada e capaz de demonstrar a evolução clínica do caso.
Mito: O perito decide quem vai ganhar o processo.
Essa afirmação não corresponde à realidade. A função do perito é produzir uma análise técnica sobre os fatos que lhe foram submetidos. A decisão final pertence à autoridade responsável pelo caso, que poderá considerar o laudo juntamente com outros elementos existentes nos autos. O trabalho pericial contribui para o esclarecimento técnico da controvérsia, mas não substitui a decisão judicial ou administrativa.
Mito: A perícia serve para defender uma das partes.
Não. O compromisso do perito é com a análise técnica. Sua atuação deve ser pautada pela imparcialidade e pela observação objetiva dos elementos disponíveis. A finalidade da perícia não é favorecer qualquer interessado, mas auxiliar na compreensão dos fatos sob a ótica técnico-científica.
Verdade: A documentação médica faz diferença.
Documentos bem elaborados e adequadamente organizados permitem compreender melhor a evolução de uma condição de saúde. Relatórios médicos, exames, prontuários e registros de tratamento ajudam a reconstruir a história clínica do paciente e fornecem informações importantes para a análise. A documentação não determina o resultado da perícia, mas contribui para uma avaliação mais completa e fundamentada.
Verdade: Cada caso é único.
Na perícia médica, raramente existem respostas padronizadas. Uma mesma doença pode produzir impactos completamente diferentes em pessoas distintas. A atividade profissional exercida, a intensidade dos sintomas, a resposta ao tratamento, a evolução clínica e diversos outros fatores influenciam a análise. Por isso, avaliações individualizadas são essenciais.
Verdade: A perícia vai muito além do diagnóstico.
O nome da doença é apenas uma parte da história. A análise pericial busca compreender limitações, capacidades, contexto funcional, histórico clínico e diversos outros elementos relevantes para responder aos quesitos apresentados. Essa abordagem amplia a compreensão do caso e permite conclusões mais consistentes.
Ao final, talvez a maior verdade sobre a perícia médica seja esta: Ela existe para transformar informações de saúde em conclusões técnicas fundamentadas. E quanto melhor compreendermos seu papel, mais fácil se torna entender por que determinadas decisões são tomadas. Conhecimento não elimina todas as dúvidas. Mas certamente ajuda a substituir mitos por compreensão.
Dra. Thayse Santos, é médica especialista e atuante nas áreas de Perícia Médica Judicial, saúde mental, beleza e qualidade de vida. Atua como perita médica junto ao Poder Judiciário, realizando avaliações técnicas em processos judiciais com enfoque ético, humanizado e baseado em evidências científicas.
Nesta coluna, busca aproximar o público do universo da perícia médica por meio de uma linguagem clara, acessível e acolhedora, traduzindo temas técnicos para o cotidiano das pessoas.



