Por Felipe Ribeiro Sant’Anna
Advogado Eleitoral
Instagram: @felipeeleitoral
Se você puxar pela memória, certamente vai se lembrar do cenário: uma sala de aula com cheiro de giz, uma mesa comprida cheia de papéis, a urna eletrônica ao fundo e um grupo de pessoas vestindo aquela camiseta oficial da Justiça Eleitoral. Para a maioria dos brasileiros, o dia da eleição dura apenas o tempo de entrar na seção, digitar os números e ouvir o tradicional sinal sonoro da confirmação do voto. Mas para os mais de dois milhões de cidadãos que passam o dia inteiro sentados do outro lado da mesa, aquele domingo de outubro representa uma jornada longa de trabalho, responsabilidade e, surpreendentemente, muito orgulho. Eles são os mesários, figuras indispensáveis que doam o seu tempo para garantir que a engrenagem da nossa democracia funcione sem falhas.
Historicamente, a carta de convocação para ser mesário era recebida por muitos como um verdadeiro castigo ou uma obrigação indesejada que estragava o fim de semana. O que pouca gente percebeu é que o perfil dessas salas de votação mudou drasticamente nos últimos anos. Hoje, a grande maioria dessas pessoas não está ali por obrigação. O número de mesários voluntários tem batido recordes consecutivos em todo o país, impulsionado principalmente por jovens universitários e cidadãos que fazem questão de se inscrever no programa por livre e espontânea vontade. Essa virada de chave mostra que o ato de colaborar com a eleição deixou de ser visto como um fardo burocrático e passou a ser encarado como um gesto nobre de cidadania ativa.
Além do inegável sentimento de pertencimento e do desejo de ver o processo acontecer de perto, a legislação brasileira criou incentivos inteligentes que ajudam a encher as listas de voluntários. Quem trabalha na eleição tem direito a dois dias de folga no seu emprego atual para cada dia trabalhado ou de treinamento oficial, sem qualquer desconto no salário. Para os estudantes de faculdades, as horas dedicadas ao tribunal contam como atividades extracurriculares, acelerando o tão sonhado diploma. No mundo dos concursos públicos, o serviço como mesário também funciona como um critério de desempate valioso, além de abrir portas em algumas instituições que oferecem isenção de taxas de inscrição em processos seletivos.
Mas para além das vantagens técnicas e das leis, o que realmente dá vida a uma seção eleitoral são as histórias humanas que acontecem entre uma colada de adesivo e outra. Ser mesário é testemunhar o primeiro voto de um jovem de dezesseis anos cheio de expectativas, estender a mão para ajudar um idoso que faz questão de votar mesmo sem ter mais a obrigação legal e garantir que cada comunidade, da maior metrópole ao distrito mais distante, tenha a sua voz respeitada. No final daquele domingo exaustivo, quando a última urna é lacrada e os dados são enviados para a apuração, os mesários voltam para casa sabendo que não foram apenas espectadores da história. Eles foram os verdadeiros guardiões do direito de escolha de todo um povo.
Sobre o autor: Felipe Sant’Anna é advogado especialista em Direito Eleitoral (OAB/ES 28.780) atuando na consultoria preventiva e assessoria estratégica para candidatos e detentores de mandato. Com histórico de vitórias em campanhas majoritárias capixabas, une a combatividade nos tribunais à forte produção técnica. É autor de obras focadas em viabilizar projetos políticos com segurança jurídica, destacando-se o “Minimanual da Pré-campanha Eleitoral” (2020 e 2024) e o “Manual de Condutas Vedadas – Eleições 2026”. Licenciado em História pela Universidade Federal do Espírito Santo.



