Pelo Psicanalista Jackson Shella
@psicanalista_jackson_shella
Eu queria te convidar, hoje, a respirar fundo comigo e olhar para uma pergunta que parece simples, mas que costuma doer lá no fundo: quem é você quando ninguém está olhando?
Talvez você já tenha sentido na pele o peso de precisar encaixar sua existência em padrões que não foram feitos pensando em você. Talvez já tenha ouvido, em silêncio ou em voz alta, que você “exagera”, que é “sensível demais”, que é “confuso”, que “vai passar”. Talvez você já tenha se perguntado se o problema é você, quando, na verdade, o problema é um mundo que insiste em ditar quem merece ser amado, respeitado, celebrado.
É por isso que, neste Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+, eu quero falar com você sobre algo que atravessa a nossa vida de um jeito muito íntimo: a afirmação da identidade e a autonomia afetiva. Não como um conceito complicado, mas como um movimento de dentro para fora, um jeito de dizer: “eu existo, eu sinto, e eu não vou mais pedir desculpas por ser quem sou”.
Quando falo em autonomia afetiva, estou falando daquela capacidade de, pouco a pouco, tirar das mãos do outro a caneta que escreve a sua história emocional. É deixar de viver apenas a partir do medo de rejeição, de culpa, de vergonha, e começar a construir relações com você e com o mundo que não sejam baseadas na necessidade de agradar para sobreviver.
Se você faz parte da comunidade LGBTQIA+, talvez a sua identidade tenha sido, durante muito tempo, um segredo, um conflito, uma culpa que não era sua, mas que colocaram sobre os seus ombros. E não é simples olhar para isso sem romantizar. Orgulho não é só festa, bandeira colorida e legenda bonita. Orgulho também é cicatriz. É lembrar que em algum momento você teve que escolher entre se abandonar para ser aceito ou se afirmar correndo o risco de perder pessoas, espaços, certezas.
Autonomia afetiva, nesse contexto, é aprender às vezes bem devagar a não deixar que o medo decida por você. É reconhecer que o amor que você merece não é aquele condicionado: “eu te aceito, mas…”, “eu te respeito, desde que…”. É entender que respeito não vem com asteriscos, e que a sua identidade não é uma fase, nem uma negociação, nem uma dívida com ninguém.
Eu sei que não é fácil. A gente carrega, muitas vezes, uma história de olhares atravessados, piadas, silêncios pesados em família, relações em que foi preciso se encurtar para caber. E isso vai se infiltrando na forma como a gente ama e se deixa amar. A gente passa a achar normal se contentar com pouco, esconder partes de si, aceitar migalhas emocionais em troca de alguma sensação de pertencimento.
Mas eu quero te dizer, com toda calma: você não precisa pagar com a própria identidade para “merecer” carinho, atenção ou companhia. Autonomia afetiva é justamente o processo de perceber essas trocas injustas e começar a dizer não. Dizer não a relações que exigem que você se apague. Dizer não a vínculos que só funcionam se você finge ser outra pessoa. Dizer não ao pacto silencioso de se trair para não “causar problema”.
Afirmação da identidade não é um ato único, é um caminho. Às vezes é discreto: usar uma peça de roupa que te representa, falar uma palavra que antes você evitava, se permitir dizer “meu namorado”, “minha esposa”, “minhe parceire”, sem engolir o termo no meio da frase. Às vezes é um rompimento: sair de um relacionamento que te invalida, colocar limites numa família que insiste em apagar quem você é, procurar espaços onde você possa respirar sem se vigiar o tempo todo.
Nesse caminho, a autonomia afetiva vai dizendo, aos poucos: “eu não vou mais me colocar em segundo plano nas minhas próprias emoções”. É claro que a gente continua desejando amor, pertencimento, cuidado. Mas a pergunta muda: em vez de “o que eu preciso cortar em mim para caber nesse lugar?”, passa a ser “esse lugar tem espaço para quem eu sou?”. E, se a resposta for não, talvez não seja você que esteja no lugar errado; talvez seja o lugar que nunca esteve à altura de você.
Orgulho, para mim, também é isso: não apenas afirmar ao mundo que você existe, mas afirmar a si mesme que você merece viver sem se esconder. Que suas emoções são válidas, que seus afetos são legítimos, que sua forma de amar não é um erro a ser corrigido, mas uma expressão da sua humanidade.
Enquanto você lê estas linhas, talvez sinta um misto de identificação e estranhamento. Parte de você pode dizer “isso é verdade”, e outra parte pode cochichar “mas será que eu posso mesmo?”. Eu não tenho respostas prontas, nem receitas. O que eu posso te oferecer, aqui, é um lembrete: construir autonomia afetiva não significa se isolar nem virar alguém “independente demais para precisar dos outros”. Significa, ao contrário, poder escolher vínculos que não te violentem, relações em que você possa se reconhecer.
Neste Dia do Orgulho, se tudo ainda parecer confuso, talvez um primeiro passo seja esse: reconhecer, em silêncio mesmo, que a sua identidade é real, que o que você sente importa, e que você merece estar em relações onde não precise pedir desculpas por existir. A bandeira que você carrega – seja ela qual for, visível ou não também pode ser a bandeira da sua própria dignidade emocional.
A cada semana, nesta nossa conversa, vamos seguindo juntos nessa arte de se pertencer: encontrando, na sua história, espaços de respiração, de coragem e de cuidado com quem você é. Porque, no fim das contas, a maior celebração de orgulho talvez seja esta: não abrir mão de si mesmo para continuar amando e sendo amado.
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Psicanalista vice presidente do Instituto Nacional de Psicanalise Clinica
Fundador da Ashells Psicanalise Clinica
Atuação com dependência emocional, terapia de casais e psicanalista organizacional



