*Por Poetisa Thaisy Moraes @thaisymoraespoetisa
Até aqui, vencido certo lapso temporal, falamos sobre o lobo. Mas toda narrativa que aponta um vilão, inevitavelmente, cria também os seus heróis. E é por isso que os três porquinhos deixam de ser somente personagens — e é justamente aqui que a história fica desconfortavelmente interessante. Aqueles três porquinhos jovens, inocentes, rosados e fofinhos tinham uma origem comum: os mesmos pais, avós e tataravós. Cresceram sob o mesmo teto, foram ensinados e amados de forma parecida e contemplaram o mundo pela familiar janela de sempre. Conheciam os mesmos perigos, os mesmos medos, as mesmas assombrações.
Ainda assim, saíram da mesma casa, e fizeram escolhas completamente diferentes diante da vida. Reagiram ao vento de formas e com ferramentas diferentes. Armaram-se perante esta força da natureza com os materiais que entenderam serem úteis e efetivos no momento da construção de sua base, de seu lar. Sobre isso, é verdade que não é possível prever a velocidade e a fúria com que o vento baterá em nossas casas. Mas cada um, à sua maneira, construiu. Isto é fato. E é exatamente neste ponto do conto que a antiga literatura fantástica, de forma cirúrgica, deixa de ser apenas fábula para se revelar um retrato silencioso da própria sociedade.
O primeiro porquinho habita o imediatismo e defende a ideia da rapidez, do conforto e da leveza para a construção da própria casa. Segundo o seu próprio depoimento, ela precisa ficar pronta logo para que tenha tempo de sobra para o descanso diário, o beijo da namorada, a cerveja da sexta-feira com os amigos e o churrasco do final de semana com a família. O material escolhido, naturalmente, será a palha: quase não exige esforço para carregar e permite que, em um curto intervalo, haja material suficiente para a construção. Otimização do tempo e do esforço; precarização da consistência e da qualidade do material. Ele é aquele tipo de porquinho que ignora as rachaduras enquanto o céu ainda está limpo. Representa a parte humana que crê que o amanhã pode esperar, que prefere o prazer rápido ao esforço duradouro. Pode-se dizer que este nobre suíno — infeliz diabo — está mais interessado no prazer imediato do que nas consequências do porvir.
O segundo porquinho é um pouco mais sensato e habilidoso no raciocínio. Consegue analisar melhor a substância da própria construção; afinal de contas, é necessário considerar as estruturas. Utiliza a madeira, material que demanda mais tempo para a extração, mais trabalho e maior responsabilidade. Ele sabe que terá de lidar com machado e serrote. Compreende, inclusive, a importância dos EPIs no manejo desse insumo. Acredite: este sujeito porcino possui maturidade suficiente para reparar as goteiras do telhado, porém não o bastante para trocar as telhas quebradas. Mas, pelo menos, ele não quer apenas brincar. Percebe os riscos, embora também continue tentando minimizar o esforço para aproveitar o momento. Infelizmente, falta-lhe a perspectiva de planejamento de longo prazo. Nem ingenuidade completa, nem consciência plena. É um porquinho mediano, meu amigo. Tem uma inclinação acentuada à mediocridade.
Já o último porquinho é o mais rigoroso, metódico e detalhista de todos: exigente, cuidadoso, cauteloso, aprofundou-se nos conhecimentos sobre construções para depois pôr a mão na massa. Eu diria que ele é quase obsessivo nos detalhes. Ele, porém, entendeu algo que os outros dois não haviam sacado: o mundo não se sustenta apenas com intenções. Casas resistentes demandam paciência, estudo, renúncia, força de vontade e esforço contínuo. Isso requer tempo, pode demorar. O tijolo é pesado. Cansa, faz suar, incomoda. A argamassa tem a sua receita de sucesso e você precisa buscar a informação correta. Pode ser que tenhamos que sacrificar os encontros amorosos, o churrasco do domingo. Quem sabe, seja necessário aprimorar os conhecimentos sobre tipos de azulejos num curso EAD justamente aos sábados.
Talvez seja por isso que admiremos tanto o terceiro porquinho, mas raramente desejaríamos verdadeiramente erguer uma casa, como ele fez. Porque estabilidade quase sempre cobra um preço silencioso antes de oferecer proteção. E é aí que as escolhas começam a pesar.
Ah! Espero você na segunda que vem! 😊
*Thaisy Moraes é servidora pública municipal responsável pelo setor de Patrimônio do Município de São Carlos/SC, biomédica formada pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), escritora e poetisa há treze anos: “Escrevo há treze anos sobre tristezas e alegrias, e belezas e feiuras, tão presentes em nossa condição humana.”
** Este material possui imagem ilustrativa feita por Inteligência Artificial.



