*Por Carla Perin
@cacaperin
Vivemos um momento de profunda transformação na relação entre humanos e animais. Nunca os pets ocuparam um lugar tão importante dentro das famílias quanto ocupam hoje. Eles participam das nossas rotinas, das viagens, das comemorações e dos momentos mais difíceis. São considerados, com razão, membros da família multiespécie. Essa mudança representa uma conquista importante. Reconhecemos que os animais sentem, sofrem, criam vínculos e possuem necessidades emocionais. Mas, ao mesmo tempo em que os aproximamos de nós, surge uma pergunta essencial:
Estamos respeitando a natureza deles ou estamos esperando que se adaptem completamente à nossa?
Na Medicina Veterinária Sistêmica, compreendemos que saúde não depende apenas da ausência de doenças. Ela nasce quando existe equilíbrio entre corpo, ambiente, comportamento e vínculos. E esse equilíbrio só acontece quando cada ser pode ocupar o lugar que lhe pertence. O animal pertence à família, mas pertence, antes de tudo, à natureza.
Quando o animal perde a conexão com sua natureza
Na rotina moderna, muitos animais vivem confinados por longos períodos, alguns passam quase todo o dia sozinhos, outros caminham pouco, não exploram ambientes diferentes ou têm poucas oportunidades de expressar seus comportamentos naturais, como consequência, podem surgir sinais como ansiedade, destruição de objetos, vocalização excessiva, compulsões, obesidade, apatia ou alterações comportamentais. Naturalmente, essas manifestações devem sempre ser avaliadas pelo médico-veterinário.
O lugar que pertence ao animal
Bert Hellinger ensinava que existe equilíbrio quando cada membro ocupa o seu lugar dentro do sistema ,essa compreensão também pode ser aplicada à família multiespécie. Por amor, muitas vezes humanizamos nossos animais ,queremos que pensem como nós. que reajam como nós, que acompanhem nosso ritmo, mas amar não significa transformar, amar também é respeitar, respeitar significa compreender que o animal possui necessidades diferentes das nossas. Ele não precisa deixar de ser animal para pertencer à família. Pelo contrário. É justamente quando pode viver sua essência que o vínculo se fortalece.
Quando o animal nos reconecta à vida
Existe um aspecto profundamente bonito nessa relação. Enquanto acreditamos que estamos ensinando nossos animais a viver conosco, muitas vezes são eles que nos ensinam a viver. Graças a um cão, voltamos a caminhar. Observamos o nascer do sol. Sentimos o vento. Pisamos na grama. Prestamos atenção aos cheiros da natureza. Um gato nos ensina desacelerar, a descansar, a observar o ambiente com curiosidade e presença. Os animais nos lembram diariamente de algo que esquecemos com facilidade:
também fazemos parte da natureza.
Talvez essa seja uma das maiores contribuições da família multiespécie. Ela não apenas aproxima humanos e animais. Ela reconecta ambos com a própria essência da vida.
Um olhar sistêmico para o futuro
A Medicina Veterinária Sistêmica nos convida a ampliar o conceito de cuidado. Cuidar não é apenas oferecer alimento, vacinas, medicamentos e conforto. Tudo isso é indispensável. Mas cuidar também significa permitir que o animal expresse sua natureza, respeitar seus comportamentos e reconhecer seu lugar dentro da família e da vida. Quando cada integrante do sistema ocupa o lugar que lhe pertence, o equilíbrio acontece de forma mais espontânea. E talvez o maior gesto de amor que possamos oferecer aos nossos animais seja justamente este:
permitir que continuem sendo exatamente aquilo que nasceram para ser.
“O amor mais verdadeiro não modifica a essência do outro. Ele cria as condições para que cada ser floresça plenamente em sua própria natureza.”
*Carla Perin
Médica Veterinária Sistêmica
Terapeuta Multiespécie
Um olhar sistêmico sobre o vínculo entre humanos e animais.



