Por Valquíria Gomes da Silva
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Enquanto uma mãe acorda antes do sol nascer para preparar o café, organizar o uniforme escolar, separar o material da escola, levar o filho ao médico, trabalhar, fazer compras, ajudar na lição de casa, dar banho, preparar o jantar e ainda colocar a criança para dormir, o pai, em muitos casos, limita sua participação ao pagamento da pensão alimentícia — quando paga — e a algumas horas de convivência em finais de semana alternados. Essa é a cena que se repete diariamente em milhões de lares brasileiros, mas que, muitas vezes, passa despercebida pela sociedade.
Essa é uma reflexão sobre a desigualdade que ainda existe na divisão das responsabilidades parentais. Afinal, criar um filho vai muito além de contribuir financeiramente. Ser pai e mãe é estar presente, participar das decisões, acompanhar o desenvolvimento da criança e dividir o peso da criação.
Como advogada atuante em Direito de Família, acompanho diariamente a rotina de mulheres que chegam ao escritório completamente exaustas. Não apenas pelo trabalho ou pelas contas a pagar, mas, também, pela sobrecarga emocional. Porque carregam, sozinhas, responsabilidades que deveriam ser compartilhadas.
São elas que sabem o nome da professora, a data da vacinação, o número do sapato da criança, a alergia alimentar, o remédio que precisa ser tomado, o horário da terapia, a reunião da escola, a festa junina, a consulta com o dentista e o aniversário dos colegas. São elas que ficam acordadas quando o filho está doente, que faltam ao trabalho para acompanhar uma consulta médica e que reorganizam toda a rotina quando acontece qualquer imprevisto.
Enquanto isso, ainda é comum ouvir elogios direcionados ao pai simplesmente porque ele buscou o filho na escola ou passou, com ele, um final de semana. Atitudes que deveriam fazer parte da rotina de qualquer genitor acabam sendo tratadas como gestos grandiosos. Parece que a maternidade é como obrigação e a paternidade, um favor.
Essa diferença de tratamento revela um problema cultural profundamente enraizado. A sociedade ainda espera que a mulher seja a principal responsável pelos filhos, mesmo quando ela também trabalha fora, sustenta a casa ou enfrenta dificuldades financeiras. A essa sobrecarga damos o nome de carga mental. Que é, justamente, aquele trabalho que ninguém vê, mas que consome energia o tempo inteiro. E não é apenas fazer. É lembrar, planejar, organizar, antecipar problemas e garantir que tudo funcione.
A guarda compartilhada representa um importante avanço ao estabelecer que pai e mãe possuem direitos e deveres iguais em relação aos filhos. Contudo, compartilhar a guarda no papel não significa compartilhá-la na prática. Também é importante desconstruir a ideia de que o pagamento da pensão alimentícia encerra os deveres parentais. A pensão é uma obrigação legal destinada ao sustento do filho menor ou incapaz, não podendo substituir presença, afeto, educação, acompanhamento escolar, apoio emocional ou participação na rotina do filho.
Enquanto milhares de mulheres continuarem acumulando jornadas exaustivas, abrindo mão da própria carreira, da saúde e até dos próprios sonhos para garantir o bem-estar dos filhos, ainda teremos muito a discutir sobre igualdade de responsabilidades entre pais.
Talvez esteja na hora de deixarmos de romantizar a sobrecarga materna. Mãe não nasceu para dar conta de tudo sozinha. Ela merece apoio, respeito e parceria. E os filhos também merecem crescer sabendo que cuidado, amor e responsabilidade não têm gênero. São deveres de quem escolheu exercer a maternidade e a paternidade.
A verdadeira igualdade entre homens e mulheres começa dentro de casa. E construir famílias mais equilibradas é uma responsabilidade que pertence a toda a sociedade.



