Por Erika Ricci
O futuro não se constrói apenas nos grandes momentos, mas nos pequenos treinos de todos os dias.
Neste domingo, milhões de brasileiros estarão diante da televisão torcendo pela Seleção. Vamos vibrar com os gols, lamentar os erros, discutir as substituições e, inevitavelmente, comentar o trabalho do técnico, e é curioso pensar que, durante os noventa minutos, ele não toca na bola uma única vez.
Não faz um passe, não marca um gol, não impede um contra-ataque. Ainda assim, sua influência está presente em quase tudo o que acontece dentro de campo. Porque o jogo é apenas o reflexo de uma preparação que começou muito antes do apito inicial.
Essas situações me fizeram pensar na parentalidade:
Muitas vezes, os pais sentem a necessidade de resolver tudo pelos filhos. Querem evitar que sofram, impedir que fracassem ou encontrar respostas para cada dificuldade que aparece pelo caminho. É um desejo compreensível. Afinal, amar também é querer proteger. Mas educar não é entrar em campo no lugar da criança.
Educar é prepará-la para que, quando a vida exigir coragem, responsabilidade, equilíbrio ou resiliência, ela tenha recursos para responder.
Assim como um técnico não forma um atleta apenas na final de um campeonato, um filho também não desenvolve inteligência emocional apenas quando enfrenta um grande desafio. Ela é construída nos pequenos treinos diários.
– Quando os pais ensinam a esperar a vez, estão treinando autocontrole;
– Quando acolhem uma frustração sem resolver imediatamente o problema, estão fortalecendo a tolerância às dificuldades;
– Quando corrigem um comportamento com respeito, em vez de humilhação, estão ensinando responsabilidade sem destruir a autoestima.
– Quando pedem desculpas pelos próprios erros, mostram que maturidade também se aprende pelo exemplo.
São atitudes aparentemente simples, mas que constroem competências emocionais que acompanharão essa criança por toda a vida.
Existe uma expectativa muito comum de que os filhos saibam lidar com perdas, frustrações, conflitos e pressão. No entanto, essas habilidades não surgem espontaneamente. Elas precisam ser praticadas, repetidas e fortalecidas ao longo da infância. É exatamente como acontece no esporte.
Ninguém espera que um jogador execute uma jogada difícil sem horas de treino. Mas, muitas vezes, esperamos que uma criança controle emoções intensas sem nunca ter sido ensinada a fazer isso. Talvez o papel dos pais se pareça muito mais com o de um bom técnico do que imaginamos.
O bom técnico orienta, observa, corrige, incentiva, estabelece limites e acredita no potencial do atleta, mesmo quando ele ainda não consegue enxergar isso em si. Ele sabe que o resultado de amanhã depende da preparação de hoje.
Na educação dos filhos acontece o mesmo.
Chegará um dia em que eles enfrentarão situações sem nossa presença. Farão escolhas, lidarão com rejeições, enfrentarão perdas, construirão relacionamentos e tomarão decisões importantes sem que possamos entrar em campo por eles.
Mas poderão carregar algo extremamente valioso: tudo aquilo que foi treinado dentro de casa.
Enquanto torcemos pelo Brasil neste domingo, talvez valha a pena fazer uma pergunta diferente.
Não estou apenas torcendo pelo futuro do meu filho… estou treinando, todos os dias, a pessoa que ele está se tornando?
Porque o resultado do jogo nós conheceremos em noventa minutos.
O resultado da educação será visto ao longo de uma vida inteira.
Érika Ricci – Psicóloga Clínica
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