Por Dra. Ana Igansi
@anaIgansiadvocacia
O novo sistema tributário desafia médicos, advogados, engenheiros, psicólogos e tantos outros profissionais que vivem da prestação de serviços.
Durante décadas, o maior patrimônio de um profissional liberal foi o conhecimento.
O médico estudou para salvar vidas.
O advogado dedicou anos para defender direitos.
O engenheiro aprendeu a transformar projetos em realidade.
O psicólogo escolheu compreender a complexidade da mente humana.
O arquiteto passou a desenhar espaços que acolhem sonhos.
Todos construíram suas carreiras acreditando que excelência técnica seria o principal diferencial para alcançar o sucesso.
E continua sendo.
Mas, diante da maior transformação do sistema tributário brasileiro desde a Constituição de 1988, uma nova realidade começa a se impor.
Será que apenas dominar a própria profissão será suficiente para permanecer competitivo?
Essa pergunta ganha força com a Emenda Constitucional nº 132/2023 e com a Lei Complementar nº 214/2025, que instituíram um novo modelo de tributação sobre o consumo, baseado na Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e no *Imposto sobre Bens e Serviços (IBS).
Embora a Reforma Tributária tenha como objetivo simplificar o sistema, reduzir litígios e aumentar a transparência, seus efeitos não serão uniformes para todos os setores da economia.
E justamente aí reside uma das maiores preocupações dos profissionais liberais.
A lógica da Reforma não trata todos os setores da mesma maneira
Uma indústria adquire matéria-prima.
Uma empresa comercial compra mercadorias.
Essas operações geram créditos tributários que poderão ser compensados dentro do novo modelo de não cumulatividade.
Já a realidade de grande parte dos profissionais liberais é diferente.
Seu principal ativo não está nas máquinas.
Não está nos estoques.
Não está nas mercadorias.
Está no conhecimento, na experiência e no trabalho humano.
É exatamente por isso que muitos escritórios, clínicas e empresas prestadoras de serviços possuem menor capacidade de geração de créditos tributários.
Essa característica estrutural tem despertado intenso debate entre especialistas, pois pode influenciar a carga tributária efetiva suportada por determinados segmentos.
Não significa que todos pagarão mais impostos.
Mas significa que cada atividade precisará ser analisada com muito mais profundidade.
O Simples Nacional permanece. Mas as escolhas ficarão mais complexas.
Uma das principais dúvidas dos profissionais é se o Simples Nacional deixará de existir.
A resposta é não.
O regime permanece previsto no ordenamento jurídico.
Entretanto, a Reforma Tributária introduz novas possibilidades e novas decisões estratégicas.
Dependendo do perfil do cliente, da estrutura da empresa, da composição dos custos e do aproveitamento de créditos pelos contratantes, será necessário reavaliar se o regime atualmente adotado continuará sendo o mais vantajoso.
A tributação deixa de ser uma escolha automática.
Passa a ser uma decisão estratégica.
O mercado exigirá muito mais do que competência técnica
Talvez a maior transformação provocada pela Reforma Tributária não esteja nas alíquotas.
Ela está na forma de administrar a atividade profissional.
O profissional liberal precisará compreender precificação.
Fluxo de caixa. Planejamento tributário.
Governança. Compliance.
Tecnologia. Gestão financeira.
Relacionamento com clientes.
Em outras palavras, será necessário administrar o consultório, o escritório ou a clínica com a mesma atenção dedicada à excelência técnica.
O mercado não premiará apenas quem conhece profundamente sua profissão.
Premiará quem souber administrar seu negócio.
O planejamento tributário deixa de ser diferencial e passa a ser necessidade
Durante muitos anos, o planejamento tributário foi visto como uma ferramenta reservada às grandes empresas.
Esse paradigma mudou.
No novo cenário, ele passa a ser essencial também para pequenos escritórios, clínicas, consultorias e profissionais autônomos organizados.
A escolha do regime tributário.
A estrutura societária.
A análise dos contratos.
A revisão da precificação.
O acompanhamento permanente da legislação.
Tudo isso poderá influenciar diretamente a competitividade do profissional liberal.
A Reforma Tributária não é uma ameaça. É um convite à evolução.
Toda mudança gera insegurança.
Mas também cria oportunidades.
A Reforma Tributária não foi concebida para penalizar médicos, advogados, engenheiros, arquitetos, psicólogos, contadores ou qualquer outra categoria profissional.
Seu propósito é simplificar um sistema historicamente complexo.
Entretanto, simplificar não significa eliminar desafios.
O profissional liberal que compreender rapidamente as novas regras terá melhores condições de adaptar sua gestão, preservar sua rentabilidade e fortalecer sua posição no mercado.
Porque o conhecimento continuará sendo o maior patrimônio de qualquer profissional.
Mas, a partir de agora, conhecer apenas a própria profissão talvez não seja suficiente.
Será preciso compreender também o ambiente econômico, tributário e empresarial que cerca cada decisão.
No Brasil que emerge da Reforma Tributária, sobreviverão não apenas os mais competentes.
Mas aqueles que conseguirem transformar conhecimento em estratégia e estratégia em vantagem competitiva.
“Mini currículo”
Dra. Ana Igansi, formada há 30 anos. Especialista na área tributária e em auditoria fiscal. Com várias especializações em cursos do Brasil e exterior, em especial Negociação em Harvard. Autora de livros, que é um dos seus hobbies, além de artigos jurídicos e mini e-books disponibilizados em seu site e blog – www.igansiadvocacia.adv.br, 51.99121.4740, [email protected].



