*Por Carla Perin
@cacaperin
Nunca estivemos tão próximos dos nossos animais quanto nos dias de hoje. Eles ocupam nossos sofás, viajam conosco, participam das festas de família e, em muitos lares, são chamados de filhos. Esse movimento representa uma importante transformação cultural. Durante muito tempo, cães e gatos foram vistos apenas como guardiões, caçadores ou animais utilitários. Hoje, felizmente, reconhecemos que são seres sencientes, capazes de sentir medo, alegria, segurança e afeto. Mas, junto com essa aproximação, surge uma reflexão importante:
Até que ponto estamos respeitando a natureza dos animais?
O que é antropomorfização?
A antropomorfização acontece quando atribuímos aos animais características, pensamentos, emoções ou necessidades tipicamente humanas. É imaginar que o cão sente exatamente como nós. Que o gato interpreta as situações da mesma forma que uma pessoa. Que aquilo que nos faz felizes também fará o animal feliz. Esse processo acontece, na maioria das vezes, por amor. Mas o amor, quando não é acompanhado de conhecimento, pode gerar equívocos. Na Medicina Veterinária Sistêmica, aprendemos que todo vínculo saudável nasce do reconhecimento da identidade do outro. Isso significa compreender que amar um animal não exige que ele se torne humano. Ao contrário. O verdadeiro cuidado começa quando reconhecemos sua essência. Um cão precisa farejar. Precisa caminhar. Precisa explorar o ambiente. Um gato precisa escalar, observar, esconder-se, brincar e exercer seus comportamentos naturais. Essas necessidades não desaparecem porque ele mora dentro de casa. Na visão sistêmica, um dos fenômenos mais comuns é a projeção. Sem perceber, muitas vezes colocamos sobre o animal aquilo que sentimos ou desejamos. Projetamos nossa solidão. Nossa necessidade de companhia. Nossos medos. Nossas expectativas. Passamos a interpretar o comportamento do pet a partir da nossa própria experiência emocional. Em alguns casos, esquecemos de perguntar:
O que esse animal realmente precisa?
Humanizar não significa apenas colocar roupas ou fazer festas de aniversário. O maior risco está em ignorar a natureza do animal. É impedir que ele caminhe porque temos medo. É não permitir que explore ambientes diferentes. É acreditar que ele prefere permanecer dentro de casa porque nós preferimos. É interpretar qualquer comportamento natural como “desobediência”, “ciúme”, “vingança” ou “culpa”, quando, muitas vezes, trata-se apenas da expressão da sua espécie. Na prática clínica, isso pode gerar ansiedade, frustração, obesidade, dificuldades comportamentais e até problemas físicos. A Sistêmica nos ensina que o equilíbrio surge quando cada integrante ocupa o seu lugar. Na família multiespécie, o tutor ocupa o lugar de cuidador. O animal ocupa o lugar de animal. Isso não diminui o vínculo. Pelo contrário. É justamente esse respeito às diferenças que fortalece a relação. Quanto mais reconhecemos a natureza do outro, mais saudável se torna a convivência. Amar um animal não significa moldá-lo às nossas necessidades. Significa criar condições para que ele possa viver plenamente sua própria natureza. Talvez esse seja um dos maiores ensinamentos da Medicina Veterinária Sistêmica. O amor verdadeiro não transforma a essência do outro. Ele a reconhece. E, ao reconhecê-la, permite que cada ser ocupe seu lugar com dignidade e respeito.
*Carla Perin
Médica Veterinária Sistêmica
Terapeuta Multiespécie
Um olhar sistêmico sobre o vínculo entre humano e animais.
“Talvez a antropomorfização revele menos sobre os animais e muito mais sobre nós. Em uma sociedade marcada pela solidão, pela ansiedade e pela dificuldade de construir vínculos humanos, é compreensível que muitas pessoas encontrem nos pets um porto seguro. No entanto, a Medicina Veterinária Sistêmica nos convida a um equilíbrio: acolher esse vínculo profundo sem esquecer que o maior gesto de amor é respeitar a natureza do outro. Quando deixamos o animal ocupar o seu verdadeiro lugar, ele não perde importância na família — ele ganha a liberdade de ser exatamente quem é.”



