Por Erika Ricci
Por muitos anos chamamos de sabedoria aquilo que hoje a ciência consegue explicar.
Existem conhecimentos que atravessam gerações muito antes de receberem um nome científico. Quantas vezes vimos uma avó levar uma criança para observar os passarinhos, sentir o vento no rosto, olhar a chuva cair, caminhar descalça na grama ou simplesmente permanecer alguns minutos em silêncio diante de um lago? Durante muito tempo isso foi chamado apenas de “jeito de vó”. Hoje, a neurociência nos ajuda a compreender por que essas atitudes costumam funcionar tão bem.
Ao longo da vida inteira, nosso cérebro vai desenvolvendo estratégias para lidar com as situações que enfrenta. Um bebê, por exemplo, quando sente fome, só sabe chorar. O choro é sua primeira forma de comunicar uma necessidade. Com o tempo, ele aprende a apontar para o que deseja e, mais tarde, consegue dizer: “Estou com fome”. A necessidade continua sendo a mesma, mas o cérebro amadurece e desenvolve estratégias mais eficientes para lidar com ela.
Com as emoções acontece exatamente o mesmo. Ninguém nasce sabendo lidar com a ansiedade, a frustração, o medo ou a raiva. A autorregulação emocional não é um dom, é uma habilidade construída ao longo do desenvolvimento. E ela se aprende, principalmente, na relação com os adultos.
Quando uma emoção muito intensa aparece, o cérebro entra em estado de alerta. Nesse momento, a criança não escolhe agir daquela forma. Ela simplesmente perde parte da capacidade de pensar com clareza, controlar impulsos e compreender aquilo que está sendo dito. Por isso, frases como “calma”, “para de chorar” ou “não foi nada” costumam produzir pouco efeito. Antes de conseguir ouvir um conselho, o cérebro precisa perceber que está seguro.
Curiosamente, muitas avós aprenderam isso sem nunca terem estudado neurociência. Em vez de insistirem para que a criança se acalmasse, mudavam gentilmente o foco da atenção. Levavam o neto para observar os peixes no lago, ouvir o canto dos pássaros, sentir o vento, tocar as folhas das árvores ou contemplar uma flor. Parecia apenas um gesto de carinho ou uma distração, mas hoje sabemos que havia muito mais acontecendo.
Ao direcionar a atenção para aquilo que vemos, ouvimos, tocamos, cheiramos e sentimos, ajudamos o cérebro a sair do estado de ameaça e a voltar para o momento presente. Atualmente, esse princípio está presente em técnicas de mindfulness e de aterramento, amplamente utilizadas na psicologia para favorecer a regulação emocional. A ciência não inventou essa estratégia; ela explicou por que ela funciona.
Mas existe um detalhe importante: essa estratégia começa no adulto.
Vivemos em um ritmo acelerado, respondendo mensagens enquanto pensamos na próxima reunião, preparando o jantar enquanto resolvemos um problema do trabalho, ouvindo nossos filhos sem realmente estar presentes. Entramos no piloto automático e, muitas vezes, queremos que a criança desacelere enquanto nós mesmos continuamos correndo.
Talvez por isso as avós nos ensinem uma lição tão valiosa. Elas costumavam diminuir o ritmo antes de tentar mudar o comportamento da criança. Primeiro ofereciam presença. Depois ofereciam orientação.
Desacelerar não significa ignorar os desafios da vida ou deixar de colocar limites. Significa interromper, ainda que por alguns minutos, a pressa para criar um espaço de conexão. Um espaço em que o adulto consegue olhar junto, ouvir junto, respirar junto e perceber o mundo ao lado da criança.
É justamente nesse momento que o cérebro encontra segurança. E somente um cérebro que se sente seguro consegue voltar a pensar, aprender, refletir e encontrar soluções. A orientação vem depois. A conexão vem primeiro.
Talvez essa seja uma das maiores contribuições da neurociência para pais e educadores. Ela não substituiu a sabedoria das gerações anteriores; apenas revelou os mecanismos que existiam por trás dela. Saber disso nos dá a oportunidade de ensinar nossos filhos, de forma intencional, estratégias para lidar com emoções difíceis e construir recursos que levarão para toda a vida.
Porque, assim como uma criança aprende a trocar o choro pelas palavras para pedir comida, ela também pode aprender a reconhecer o que sente, voltar ao momento presente e regular suas emoções. Mas esse aprendizado começa quando encontra um adulto disposto a desacelerar junto com ela.
Talvez o segredo das avós nunca tenha sido um dom especial. Talvez elas apenas tenham descoberto, pela experiência e pelo afeto, aquilo que a neurociência levou anos para explicar: antes de ensinar uma criança a controlar suas emoções, precisamos ajudá-la a encontrar um lugar de segurança dentro de si. E esse caminho quase sempre começa na presença calma de um adulto.
Erika Ricci – Psicóloga Clínica
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